—Bem, bem; fallemos n'outro assumpto; pois decido-me, faço-te a vontade; vá lá, é preciso sacrificar um poucochito ao futuro... tu tens razão, minha Lili...
—Obrigada—e tomou-lhe a testa, um beijo longo, muito carinhoso, como um agradecimento evolado do intimo.
Sentia-se feliz n'aquelle instante; uma como fluctuação luminosa palpitava dentro da sua alma de mulher, dando-lhe uma ebriedade suave; tinha vontade de absorver dentro de si toda a personalidade do seu Alberto, integrando-a n'um mesmo amor, com a do pequenino ser mysterioso, que vivia no sanctuario das suas entranhas. Queria ella ser o fóco de irradiação fecunda para os dous, que se confundiam n'um só, ser o carinho affectuoso, a consolação, a ambrozia que os ungisse na mesma embrocação de felicidade.
—Porque não havia de ser sempre assim! para que se haviam de levantar espinhos no jardim da sua existencia? como era bom amar sendo amada!...—
Nem quiz sahir n'aquelle dia; foi para a varanda que deitava sobre o quintal, ver descer serenamente a tarde no ceu côr de rosa, deixando um sorriso de saudade ás franças das arvores, que matisavam, como grandes nodoas, o alvor das casarias da cidade; e á noute quando a meia luz do abat-jour lhe deixou ver o Alberto a seu lado, repoltreado n'uma cadeira de verga, pensou no seu tempo feliz de mulher solteira e lembrou-se{149} de Bertha, áquellas horas ouvindo o sussurro eterno do mar, ao lado do seu Roberto.
Communicaram ao Jorge a resolução tomada,
—ainda bem, ainda bem—e jantou n'aquelle dia com mais appetite, a satisfação de ver dissipar-se uma nuvem que pesava sobre o seu espirito.—E á noute nos seus colloquios entre amorosos e confidenciaes com a Joaquina:
—o rapaz indireitou-se, vamos lá—
—Deus queira que elle tome tento na bola, Snr. Jorge.
—Ha-de tomar, ha-de tomar, cá estou eu para o dirigir.—