—Quem lhe dera já ver-se livre d'aquelle perigo—dizia—e ia entretanto occupando o pensamento com o enxoval do seu bebé, um enxoval rico, umas rendas finas a enfeitarem as camisinhas, as pequeninas saias, os vestidinhos de passeio.{160} A Joaquina aconselhava com o bom senso pratico das filhas do povo—
—que era preciso tratar das envoltas, das flanellas, de cousas que agasalhassem e trouxessem a creança sempre fresca,—
—Tu sabes lá o que dizes!...
—Pois a senhora verá... para que lhe servem os bonitinhos.—
Mas os bonitinhos encantavam a imaginação da futura mãe; via a sua filhinha,—havia de ser uma menina—toda aceiada no collo da ama, uma capa branca de fustão cobrindo-a toda n'uma ondulação macia, a touca de rendas circumdando, como uma auréola, o seu pequenino rosto de cherubim, d'um côr de rosa pennugento;
—passearia com ella no Palacio á hora da musica, nos formosos dias de primavera que vinham a despontar, quando o sol, como um bohemio alegre, fatigado do ar soturno do inverno, se rebolasse a sorrir na limpida atmosphera azul.
—por-lhe-ia o nome de Rosina, um nome poetico, celebrado nos romances, uma heroina por quem se inflammara no capitoso aroma da paixão o coração do conde de Almaviva.
—E a sua Rosina, seria linda, não admittia a possibilidade d'ella ser feia... nem mesmo tinha a quem sahir—accrescentava n'um confronto vaidoso da sua e da plastica do Alberto.—
Via-a depois com a gracil formosura dos oito annos, vindo toda ladina do collegio, já uma senhora feita nos ditos espirituosos, uma precocidade nubil de namoros, e entrando mais tarde nos bailes, invejada como ella o fôra, requestada{161} pelos mais elegantes, chegando a causar delirio na impetuosidade das walsas.—
A despertal-a d'estes embevecimentos a natureza annunciava a approximação da crise por vagas dores contrativas, e toda ella se recolhia n'um receio pueril, com panico de morrer, a imaginação a figurar-lhe casos muito funestos.