—Já vê que a pobre martyr não póde continuar a viver com aquelle verdugo.

—Não, não póde continuar, fez bem em me chamar; auxilial-a-hei em tudo o que possa; cumpro mesmo com um dever; o Jorge tinha-me dito que ella não era feliz, mas a morte veiu, não teve tempo de se explicar.—

—Pois ahi está tudo explicado.

—Infelizmente!... Mas ainda hoje eu irei fallar a um advogado, ein, e lhe protesto que ella se libertará d'aquelle despota.

O espirito do commendador nunca se sentira tão agitado, como desde aquella revelação da D. Clementina; por um lado, no seu coração uma chamma d'amor relampejava, inflammando na sua labareda todas aquellas recordações semi-extinctas que o tinham feito pensar em Ermelinda, como um ideal que se não attinge,

—o baile da casa do Mendes, as noites da sueca, o debruçar do seu corpo gentil nos braços{208} d'elle, quando o Jorge fallecera, esta scena sobre tudo, perpassavam-lhe na imaginação com um colorido quente e vivo, como se ali refervessem ondas tumultuosas de vapor, que não tivessem por onde se escapar.

E depois a revelação de que a Annita o trahia escandalosamente,

—ella, a quem elle tinha levantado da miseria, a quem dera sêdas e brilhantes, a quem montara uma casa com todas as commodidades do luxo,—para outro gozar, afinal—

—ah, era de mais!—protestava—e vingar-se-ia, vingar-se-ia estrondosamente, despedil-a-ia como quem despede uma escrava, sentindo apenas que não podesse cortar-lhe as carnes com um bom chicote, como no Brazil se fazia aos negros! e a elle então tirar-lhe-ia a mulher como uma boa desforra, desmascarar-lhe-ia aquella refalsada hypocrisia, daria uma publicidade grande á sua infamia, exhaltando a martyr, e depois quem sabia—talvez que no coração d'ella brotasse um perfume de gratidão e amor!... apesar de que a lei condemnava-a brutalmente a um celibatario perpetuo, uma lei estupida, que a collocava n'uma posição violenta e falsa, fechando-lhe a felicidade como um pomo vedado,—mas veriamos, veriamos.—

Foi d'ali ter com um advogado.