Entrou no seu quarto, fechou a porta bruscamente.

A Joaquina ainda philosophava:

—bem o dizia ella, estava com a telha—e continuou a correr o ferro de brunir sobre uma camisa de homem.

Uma lampada de vidro fosco, suspensa n'um tripede de metal bronzeado, punha uma meia luz suave sobre o recinto, onde entrara Ermelinda.

Deixou-se cahir n'uma chaise-longue; os seus joelhos sobrepondo-se, n'um habito de quem costura, deixavam sahir da linha desordenada do vestido alvuras de saias e um pé elegante, n'um sapatinho de bico, enleado, que deixava vêr a fórma nervosa um pouco secca, da perna calçada em meia côr de rosa.

Apoiou a face sobre a mão esquerda, e os seus{37} dedos, n'uma mechanica inconsciente, beliscavam inquietos o rosado lobulo da orelha. Os olhos extacticos e mudos como dois lagos de luz, poisavam, n'uma absorpção humida e contemplativa, sobre os moveis d'aquelle ninho tão povoado das suas ideias, dos seus sonhos, das emanações perfumadas da sua alma.

Tudo porém n'aquelle momento se lhe affigurava estupido, inerte, sem uma recordação, sem uma saudade. O espelho do toucador reflectia-lhe sombras indecisas e vagas; os pequenos frascos de crystal, cheios d'essencias que ella tanto amava, pareciam-lhe agora comparsas imbecis que rodeiam o genio d'um grande artista. A sua commoda pequena, com embutidos de madreperola, onde guardava os seus bellos vestidos, tinha as apparencias informes d'uma tartaruga collossal, empalhada, nos ocios de museu.

Como nos lagos tranquillos, ao avisinhar das tempestades, saltam ao lume d'agua peixes prateados, assim tambem do intimo do seu peito respirações suspiradas sahiam de quando em quando, agitando-a na quietação muda das suas meditações concentradas.

—Porque não teria elle vindo?—

Era a pergunta que o seu espirito não cessara ainda de formular, sem que sahisse do circulo vicioso, d'uma resposta negativa. Acudiam-lhe muitos motivos, muitos pretextos, para o desculpar, para o censurar.