Deram as boas noites; foram para o seu quarto. O Jorge ficou um poucochinho ressentido d'aquelle acolhimento ás suas perguntas; isolava-o{109} aquella friesa, e instinctivamente voltava-se para a Joaquina,—um sorriso franco, sempre alegre, uma grande palradeira, que o escutava com muita attenção e respeito.—
—Isto agora é outro modo de vida, não tem que ver.—
—Mas então, que dizes tu a isto, Joaquina?—
—Boa!... olhe, se quer que lhe falle com franqueza, eu com a cara d'elle não engraço.—
—Lá isso tambem não, é bom rapaz, o Alberto.
—As obras é que o hão-de dizer; olhe que as apparencias tambem enganam.
Os primeiros dias iam passando; uma nevoasinha de tédio descia, envolvendo-os, fazendo descer o nivel elevado da emotividade.
Ermelinda achava a sua casa pouco romantica para aninhar, n'um aconchego tépidamente voluptuoso, a pomba ideal da sua paixão;
—Oh, quanto mais lindo não era o Bom-Jesus, com as suas arvores de copas obumbradas, as suas fontes de crystalina agua, o lago com o barcosinho, o azul esbatido da luz, cortando-se nas irregularidades da payzagem.
Comparava com a sua casa, uma monotonia, sempre aquelle barulho ruidoso de cidade amortecendo-se pelos corredores, a sala forrada a papel, com aquelle monstro do piano a um canto, umas bugigangas de biscuit eternamente postas sobre as consoles; o seu quarto um pouco pesado, com a grande cama á franceza, de mogno, occupando o centro, sem uma recordação boa, que o povoasse de saudade, a lamina do espelho, reflectindo-a, como um confidente silencioso, que{110} parecia adivinhar-lhe os mais occultos pensamentos, e depois a Joaquina, uma criada sem a elegancia moderna, sem aquella submissão respeitosa do criado encasacado, que passa nobremente nos tapetes offerecendo-nos um copo d'agua, com uma ceremonia de diplomata.