—Isto custa, Joaquina.
—Boa, até parece mais triste esta casa!
E approximavam-se n'uma necessidade imperiosa de convivencia, consolando-se mutuamente, recordando os dias tranquillos do passado em que todos os corações tinham a suave claridade da paz; iam-se prendendo, ensilvando, n'uma attracção baseada na mesma força, revelando-se reciprocamente, contentes por se comprehenderem, por se verem reunidos no mesmo caminho de solidão. E eram já mais amigos, permittindo-se pequenos gracejos, umas familiaridades demoradas, em que se espancava o convencionalismo do respeito. O molle temperamento lymphatico da Joaquina accendia-se, como uma phosphorencia errante; e quando á noite o seu corpo cahia no macio nevado dos lençoes, a imagem do Jorge, substituindo a do policia 45, desenhava-se nitida, d'uma perfeição correcta na sua imaginação de mulher viuva de materialidades sensuaes.
Quanto a elle sentia o sangue inflammar-se, uma desfaçatez de desejo apresentando-se intransigente á sua moralidade, com uma causticidade irrequieta, penetrando-o, atravessando-o com o impeto d'uma amazona de circo atravez da fragilidade{113} d'um arco de papel. Quebrava as hesitações com argumentos especiosos, como um britador teimoso as pedras que lhe resistem; mas era cauteloso, prudente, tivera sempre medo do escandalo; e por isso evitava as occasiões de tentação, com um puritanismo timido, balbuciante, não se querendo aventurar sem a certeza da acquiescencia, gostando muito de jogar pelo seguro,
—esperar o ensejo, sobretudo—dizia.
Os primeiros aborrecimentos iam-se accentuando, mais repetidos, mais duradouros. Ermelinda conhecia que o Alberto lhe fugia, a imaginação fatigada, farto á saciedade do seu papel romantico de Antony; sentia um grande desconsolo, uma melancholia enervante, vendo esfolhar-se a flor azul das suas illusões, e recolhendo-se no fundo da propria phantasia, como n'uma cella monastica, deixando-se voar ao encontro do extasi mysterioso, que tantas vezes sonhara quando via nos livros a paixão descripta com traços patheticos, d'um mysticismo ideal.
—Ah, como são infelizes as pobres mulheres—dizia—que decepção as espera!
e recostava-se na sua poltrona, um romance aberto, a imaginação voejando com o romancista no caminho de fogo, onde appareciam em sulcos luminosos os grandes heroes do amor, os martyres, os eternos namorados, os divinisadores da paixão.
E a sua phantasia vendo apenas o drama, engolphava-se n'este sonhar d'uma morbidez debilisadora, esquecendo que para aquem d'esse ideal{114} mentiroso, existia bem perto d'ella, um outro ideal menos allucinante, mas mais casto, cheio das austéras doçuras intimas, dos affectos suaves, das virtudes ignoradas mas nem por isso menos formosas, um ideal, que toda a mulher deveria ter como a columna de luz que lhe guiasse os passos atravez do caminho da existencia.
E n'essa abstracção, em que lhe andava erradamente o espirito, Ermelinda tinha descuidos imperdoaveis de toilette, um desleixo que a amollentava, ficando ás vezes um dia inteiro com o penteador da manhã, o cabello cahido, simplesmente preso na nuca, deixando uma humidade oleosa na brancura da bretanha.