APÓLOGO.
A Gallinha, e os Pardaes.
N'huma reserva de estrume
Gallinha sôfrega andava,
Espalhando com os pés
O deposito, que achava.
Bando de espertos Pardaes
Muito de perto a seguião,
Quanto ella esgaravatava
Elles, famintos, comião:
Neste, naquelle lugar
Andava a triste cançada;
Os Pardaes comião tudo,
A pobre Gallinha nada:
Té que sacudindo as azas,
Virou de repente, e vio
A manada charleadora,
Que áquelle estrume acudio.
Então disse: Está mui bom
Esse modo de viver!
Eu descobrindo, e espalhando,
Para os mais virem comer!
Por certo que estou lograda!
N'outra não torno a cahir:
Donde vir estes golosos
Eu cuidarei de fugir.{46}
Hum Pardal de escuro bico
Dos outros sahio á frente,
Que por ser Pardal ja velho,
Se julgava intelligente:
E querendo despicar
Aquella descompostura,
Deo á Gallinha em resposta
Esta sentença madura:
Este lugar, em que andamos,
Não he vedado a ninguem;
Temos a elle o direito,
Que qualquer Gallinha tem:
De mais ha outro motivo;
Quem por espalhar trabalha,
He certo que já não quer
As mesmas cousas, que espalha:
Nós aproveitamos tudo
Fiados nesta razão;
Ninguem he tolo, que deixe
De acceitar o que lhe dão.
A Gallinha envergonhada
Das satisfações, que ouvio,
Deo huma volta em redondo,
E nem mais o bico abrio.
Os que achão dinheiro junto,
Como herdeiros de seus pais,
Fazendas, cópa de prata,
E outros muitos cabedaes;{47}
Que espalhão tudo por vicios,
Appetites, e funcções,
Dando cabo do que tem
Com loucas combinações,
Talvez que mais se acautelem,
Se disto se recordarem:
A Gallinha espalha, espalha,
Para os mais se aproveitarem.
CONTO EPIGRAMMATICO.
Ha pelas casas das Sortes
Tres Tabellas penduradas
Com attractivas fortunas,
Mas são fortunas pintadas.
Tem por cima Premios grandes,
Que se chamão de cabeça;
Por baixo os mais diminutos,
Em que a gente nada int'ressa.
Entrou na loja um Laponio,
Querendo Sortes comprar,
Metteo prompto a mão na caixa
A rir muito, e a perguntar:
Diga-me senhor caixeiro,
Porque saber me convem,
Se esses Premios de cabeça
Todos esta caixa tem?{48}
Respondeo hum dos que estavão
Arrumados ao balcão:
Descance; que os de cabeça
Todos nessa caixa estão:
Cabeça he que nós não temos
Em vir sentar-nos n'hum banco
A trocarmos o dinheiro
Por iscas de papel branco.
CONTO
Do Sabio por imaginação.
Certo Rapaz de Provincia
A Lisboa veio dar,
O qual não sabia ler,
Nem escrever, nem contar.
Para ganhar o sustento
Pôz-se a servir hum Letrado,
Esperto, prompto, e fiel,
Mostrando-se hum bom criado.
De tres a tres mezes o Amo
Por costume lhe dizia:
Esfrega-me essas estantes,
Limpa-me essa Livraria.{49}
Ajuntou alguns vintens,
E a sua patria buscou,
Onde se estabeleceo
Com fazendas que comprou.
Lá na Botica da terra
Elle hia as noites passar
Com o Cura, e mais pessoas,
Que alli vinhão palestrar.
N'huma noite huma questão
Se moveo co'hum Estudante,
Em que elle se foi metter
Por atrevido e ignorante.
Instava sem reflexão
Dizendo: He que me faltava;
Se por ter aberto livros
Vossa Mercê me encovava.
Eu tambem Livros abri,
Lidei com discreta gente;
Não jugue o senhor novato
Que acha em mim algum demente.
O estudante, que sabia
Que o tal servíra hum Letrado,
Querendo-o desmascarar,
Lhe respondeo enjoado:
Eu sei que livros abrio,
Mas diz gente verdadeira,
Que abria livros alheios,
Para tirar-lhe a poeira{50}
Eis como alguns impostores
De sabios querem ter fama,
Lendo só rostos de Livros,
Nada fruto, e tudo rama.
Não estudão, nem se canção;
Querem que a sabedoria
Se pegue, bem como a febre
Em tempo de epidemia.