Com licença da Real Meza Censoria.
{3}
[ODE.]
Ó Tu do Ethereo Jove Irmaõ potente,[[1]]
Supremo Pai das humidas Deidades, * ...
Que manejas terrifico tridente,
Que dominas as mesmas tempestades,
Tu que todas as gentes senhoreas
Na procellosa, nivea, vasta herança, * ...
Que os cavallos maritimos enfreias,
Distinguindo a tormenta da bonança,
Levanta sobre o Pélago profundo
A limosa cabeça, e vinga o Mundo.{4}Sacrílegos Tipheos,[[2]] que conspirados
Sem respeito a coriscos tortuosos
Sobre os Orbes voluveis, e sagrados
Intentastes alçarvos ambiciosos,
Nos raios crepitantes destruidos,
Em castigo do cego atrevimento,
De pérfidos ingratos, e atrevidos
Contra o supremo Deos do Firmamento,
Vêde a outros Tipheos;[[3]] delicto insano!
Que empunhaõ armas sobre o largo Oceano.{5}De Inexoraveis filhos circulada
Aligera mulher[[4]] cega, e robusta,
De Mercurio nas Artes educada * ...
Ah que tudo extremece, tudo assusta!
Dos bens alheios ávidas Arpias,[[5]]
Das cavernas Estygias povoadoras,
Tristes imagens só de tyrannias,
Dos maiores insultos aggressoras
Vaõ atacar na liquida corrente
A nadante morada, a inerme gente.{6}Já as nocturnas aves vaõ pascendo
Com os bicos de ferros aguçados;
Nos quentes corações satisfazendo
Os vís desejos nunca saciados:
Aos tristes palpitantes destruidos
Calcaõ os pés immundos, e cruentos,
De huns resoaõ inda alguns gemidos,
Outros de todo já não tem alentos:
He tudo confusaõ, tudo agonia,
Que encobre a noite, té que chega a dia.{7}Aos maniatados corpos traspassando
Do silencio nocturno a amiga turba,
Que se farta no sangue miserando,
E o socego do publico perturba,
Huns entregaõ o peito ao golpe duro,
Sem remedio saõ outros aprehendidos;
Huns escolhem o mar por mais seguro,
Outros escapaõ sim, mas escondidos;
Este cahe, outro expira, aquelle geme,
Correm rios de sangue, e tudo treme.{8}Com este pezo as aguas se incurvaraõ,
E Neptuno apôs delle, logo erguendo
A lança triplicada, se avistaraõ
Em sanguentadas ondas decorrendo;
As formosas Nereidas[[6]] lhe assistiaõ,
As crystallinas lagrimas limpando,
E os ligeiros Delfins tristes corriaõ,
Com mil ordens a Eolo[[7]] decretando:
Os Euros[[8]] sibilantes quiesceraõ;
Boreas, e Aquilões emmudecêraõ.{9}Torpe, execrando, barbaro, incontrito,
Em vaõ, em vaõ procuras asylarte,
Pois que a culpa em sagrado he hum delito,
Que o sagrado naõ deve perdoarte:
Elle te guardará por criminoso,
E os mesmos elementos conjurados
Faraõ o teu supplicio tormentoso,
Por crimes nunca de outros cogitados:
Caso de horror, de susto, magoa, e pranto,
Que ás mesmas féras causaria espanto!{10}Oh que incuravel mal! Oh que fadiga
Com diligencia insana procurada,
Que a homens contra homens volve, e obriga,
E que faz a Republica turbada!
Grande fome, alta sede do Thesouro,
Que motivas o odio, a vil surpreza,
Só por fartarte hydropica no ouro,
Atropellando as leis da natureza!
De immortal fome, ah Tantalo[[9]] ambicioso,
Tanto mais farto, quanto mais sequioso!{11}Vem ó filha do Ceo, de Themis filha,[[10]]
Que nascendo do Ceo, ao Ceo tornaste,
Em cuja maõ direita a espada brilha,
E na esquerda equilibrios ensinaste;
Dispoem golpes mortaes, golpes sensiveis,
Contra os filhos da terra, vís, cruentos,
Monstros da tyrannia os mais terriveis,
Dignos de alto castigo, altos tormentos;
Corta filha de Jove[[11]] a iniquidade,
Tanto delicto, insulto, e crueldade.{12}Já os ferreos grilhões, grilhões pezados
Arrastraõ os crueis insultadores,
Já ficaõ comprehendidos, e accusados
Do delicto maior, culpas maiores;
Confessos, maniatados, e arguidos
Gemem, debaixo dos mais justos pezos,
A certeza de serem percutidos,
O tormento de serem Réos, e prezos,
De pagarem as vidas tantos damnos
Para maior horror dos deshumanos.{13}Olhai crueis a sorte do tormento,
Que naõ tem proporção com tal insulto,
Assim como differe do cruento
O justo coração,[[12]] o mesmo indulto.
Ide, ide pagar feios delictos,
E ser nos altos póstes presentados;
Naõ incautos, sem tempo, inda que afflictos,
Com culpa, com favor, e preparados;
Vêde, vêde o que póde a alta Piedade,
Inda quando castiga a víl maldade.{14}A maõ mimosa,[[13]] e Regia, junta ao peito
O coração mostrando mais piedoso,
Cheio de luz, e cheio de respeito,
De hum semblante purissimo, e formoso,
Que espalha sobre todos a riqueza,
Rios de Graça, mil preciosidades;
A maior exemplar de alta grandeza,
Que honra o sacro Throno, e as Magestades,
He, quem fez castigar o impio roubo,
Quem nos fez libertar do voraz lobo.[[14]]{15}Venturosa Ulysséa, ergue o rosto,
E beija a sacra Maõ, que em nós derrama
O socego, a fortuna, a paz, e o gosto,
Huma chamma de amor, e outra chamma;
Affina, a aurea lyra, e teus louvores
Cheguem aos Ceos voluveis, estrellados,
Cujo supremo Author lhe dá favores,
E por ella nos faz felicitados
Por ella, que virtudes mil encerra,
Que premeia a virtude, e o vicio aterra.{16}
[PROTESTAÇAÕ.]
Protesto, que como filho da Santa Igreja Romana, me sujeito aos preceitos da Fé, e da Religiaõ Catholica, e que as palavras Mythologicas desta composiçaõ Poetica saõ ornatos da Poesia, e naõ verdades della.
Defronte da Ermida de Nossa Senhora da Gloria em casa do Author se vendem todas as suas obras.
[[1]] Neptuno filho de Saturno, Irmaõ de Jove, e Deos dos Mares.
[[2]] Tipheos, saõ os Gigantes filhos da terra, que pertenderaõ fazer guerra a Jupiter.
[[3]] Aqui se tomaõ pelos aggressores da culpa nos Dominios de Neptuno.