José Daniel Rodrigues da Costa{V}

PROLOGO.

Nem a vaidade de ser Author, nem a presumpção de exceder os Escriptores do meu tempo, nem o desvanecimento dos repetidos elogios, que muitas Pessoas me fazem, serião incentivos bastantes para eu escrever com tanta assiduidade, como escrevo. Não me ufanão semelhantes apavonações; porque o deixar-me possuir destes fôfos sentimentos seria em mim huma bem notada mania.

Devem capacitar-se os meus amabilissimos Leitores que o meu genio, hum pouco propenso ás Bellas Letras, e mais que tudo, o muito, que prezo quanto he honesto, e civíl, he que me desafia a desembainhar a espada da Critica contra os vicios em todas as minhas Obras, acutilando estes, e poupando com tudo os seus adoradores.

He por tanto que exponho ao Público esta Obra dos achaques chrónicos, com que o tempo tem contaminado os antigos, memoraveis, e bem acceitos costumes do nosso Portugal; que quanto mais se reprehendem os d'agora,{VI} tanto maiores elogios se fazem aos passados.

Tem os vicios, e os abusos chegado ao maior auge na presente época em ambos os sexos. Não se lhes acha mediania; e neste labyrintho de cousas não fica ao homem, que bem pensa, mais que os dois refrigerios: ou de chorar, ou de rir dos destemperos deste Seculo nos excessos, que se observão no luxo, nas educações, e no viver de agora.

Com effeito eu vejo os tempos bem desgraçados para composições de qualquer natureza. Nos principios do Seculo dezoito houve muito quem escrevesse, porque havia muito quem lêsse; depois ainda houve muito quem lêsse, e menos quem escrevesse; mas presentemente nem ha quem escreva, nem quem lêa; porque as minimas cousas, que apparecem, nem essas mesmas se gastão.

Vamos porém sempre compondo alguma cousa para huma parte da mocidade bem morigerada, que ainda se encontra tanto nesta Cidade, como por essas Provincias; Rapazes applicados, de perfeita educação, e que faz gosto ouvillos na sociedade: com estes me entenderei; em quanto os outros entregues ás desenfreadas paixões, que os illudem, se fazem verdugos de si mesmos. Sobre estes he que recahe{VII} a critica desta pequena composição, que desenvolve os achaques de Portugal, causados pela epidemia dos vicios, e abusos de huma grande parte de gente.

Leitor, perdôa aos defeitos da Obra; mas não perdôes aos teus, para não seres contado no catalogo dos viciosos: compra, e lê, que he o melhor modo de saberes quanto isto

Vale.{VIII}