*Segunda*.—Um dia, que chovêra muito, e o horizonte estava mais incerto, o marinheiro cançou-se de sonhar… Quiz então recordar a sua patria verdadeira…, mas viu que não se lembrava de nada, que ella não existia para elle… Meninice de que se lembrasse, era a na sua patria de sonho; adolescencia que recordasse, era aquella que se creara… Toda a sua vida tinha sido a sua vida que sonhara… E elle viu que não podia ser que outra vida tivesse existido… Se elle nem de uma rua, nem de uma figura, nem de um gesto materno se lembrava… E da vida que lhe parecia ter sonhado, tudo era real e tinha sido… Nem sequer podia sonhar outro passado, conceber que tivesse tido outro, como todos, um momento, podem crer… Ó minhas irmãs, minhas irmãs… Ha qualquer cousa, que não sei o que é, que vos não disse…, qualquer cousa que explicaria isto tudo… A minha alma esfria-me… Mal sei se tenho estado a fallar… Fallae-me, gritae-me, para que eu acorde, para que eu saiba que estou aqui ante vós e que ha cousas que são apenas sonhos…

*Primeira* (numa voz muito baixa).—Não sei que vos diga… Não ouso olhar para as cousas… Esse sonho como continúa?…

*Segunda*.—Não sei como era o resto… Mal sei como era o resto… Porque é que haverá mais?…

*Primeira*.—E o que aconteceu depois?

*Segunda*.—Depois? Depois de quê? Depois é alguma cousa?… Veiu um dia um barco… Veiu um dia um barco…—Sim, sim… só podia ter sido assim…—Veiu um dia um barco, e passou por essa ilha, e não estava lá o marinheiro…

*Terceira*.—Talvez tivesse regressado á patria… Mas a qual?

*Primeira*.—Sim, a qual? E o que teriam feito ao marinheiro? Sabel-o-hia alguem?

*Segunda*.—Porque é que m'o perguntaes? Ha resposta para alguma cousa?

(uma pausa)

*Terceira*.—Será absolutamente necessario, mesmo dentro do vosso sonho, que tenha havido esse marinheiro e essa ilha?