Ermida branca sobre o monte.
Nossa Senhora da Paz…

Peregrino voltei sem ser ouvido.
Rasguei os meus pés pelo caminho ido.
Ai, a calma de tudo quanto jaz
No frio esquecimento! Sobre a ponte
A procissão caminha. Sob o arco
Singrou sereno um barco
A caminho do mar.
Ó perdida visão da minha Ansia!
Vejo-me só na lugubre distancia,
Cadaver dos meus sonhos a boiar.

Lisboa—1914.

OUTRO

Passo triste no mundo, alheio ao mundo.
Passo no mundo alheio, sem o ver,
E, mystico, ideal e vagabundo,
Sinto erguer-se minh'Alma do profundo
Abysmo do meu Ser.

Vivo de Mim em Mim e para Mim
E para Deus em Mím resuscitado.
Sou Saudade do Longe d'onde vim,
E sou Ansia do Longe em que por fim
Serei transfigurado.

Vivo de Deus, em Deus e para Deus,
E minh'Alma, somnambula esquecida,
N'Elle fitando os tristes olhos seus,
Passa triste e sósinha olhando os céus
No caminho da Vida.

Fui Outro e, Outro sendo, Outro serei,
Outro vivendo a mystica belleza
Por esta humana fórma que encarnei,
Por lagrimas de sangue que chorei
Na terra de tristeza.

Espirito na Dôr purificado,
Ser que passa no mundo sem o ver,
Em esta pobre terra de peccado
Amor divino em Deus extasiado,
O meu Ser é Não-Ser em Outro-Ser.

Lisboa—1914.