Não tenho personalidade alguma.
É mais notado que eu êsse criado
De bórdo que tem um belo modo alçado
De laird escossez ha dias em jejum.
Não posso estar em parte alguma. A minha
Patria é onde não estou. Sou doente e fraco.
O comissário de bórdo é velhaco.
Viu-me co'a sueca… e o resto êle adivinha.
Um dia faço escândalo cá a bórdo,
Só para dar que falar de mim aos mais.
Não posso com a vida, e acho fatais
As iras com que ás vezes me debórdo.
Levo o dia a fumar, a beber coisas,
Drogas americanas que entontecem,
E eu já tão bêbado sem nada! Déssem
Melhor cérebro aos meus nervos como rosas.
Escrevo estas linhas. Parece impossivel
Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta!
O facto é que esta vida é uma quinta
Onde se aborrece uma alma sensivel.
Os inglêses são feitos pra existir.
Não ha gente como esta pra estar feita
Com a Tranquilidade. A gente deita
Um vintém e sai um dêles a sorrir.
Pertenço a um genero de portuguêses
Que depois de estar a India descoberta
Ficaram sem trabalho. A morte é certa.
Tenho pensado nisto muitas vêzes.
Leve o diabo a vida e a gente tê-la!
Nem leio o livro á minha cabeceira.
Enoja-me o Oriente. É uma esteira
Que a gente enróla e deixa de ser béla.
Caio no ópio por força. Lá querer
Que eu leve a limpo uma vida destas
Não se pode exigír. Almas honestas
Com horas pra dormir e pra comer,
Que um raio as parta! E isto afinal é inveja.
Porque estes nêrvos são a minha morte.
Não haver um navio que me transporte
Para onde eu nada queira que o não vêja!