—Veja o meu amigo as francezas que mesmo quando são cócóttes sabem de cór a Marselheza! O senhor Barbosa fallava tão gesticuladamente que um senhor da Baixa que tem tabacaria e chapeu de palha e uma apparencia melhor que elle-proprio chegou-se á meza e disse baixinho ao ouvido do meu amigo:
—O gajo é germanophilo?
Então o senhor Barbosa entezou-se n'um d'estes nãos que querem dizer—'tás doido! e eu juro que nunca mais esquecerei este meu amigo que me salvou da morte. Entretanto sua Ex.^ma esposa retirava p'la segunda vez e mais suavemente ainda o seu pé pequenino de cima da minha bota.
Depois houve um silencio extactico co'o creado a perguntar se o tinham chamado e o meu amigo senhor Barbosa virando-se repentinamente prá porta chamou muito alto: ó Marcos! e preveniu como quem não quer ter remorsos e com o braço o mais alto que podia: não penses n'isto, hein!? Era a minha innocencia. Ainda houve um segundo silencio extactico, sem o creado a perguntar se o tinham chamado, mas não contente o meu amigo foi a correr e ainda agarrou á esquina do Rugeroni o tal senhor da Baixa que tem tabacaria e chapeu de palha e uma apparencia melhor que elle-proprio. Eu queria seguir todos os seus gestos pra perceber d'ali de dentro do café aquella segunda confissão do meu dedicado amigo senhor Barbosa mas sua Ex.^ma esposa começou a observar mexendo o meu relogio de pulseira e sem olhar pra mim disse que eu tinha uns olhos muito bonitos. Ainda julguei que fôsse outra salsa que ella quizesse mas não, d'esta vez era café com leite. Perguntou quem me tinha dado aquella pulseira tão gentil e quando eu lhe disse que foi uma allemã ella escondeu um lacinho preto, amarello e vermelho que tinha pregado no lado direito com uma andorinha azul de esmalte.
—Então o senhor é germanophilo?
—Tambem tenho um pijama de sêda que me deu uma senhora franceza.
De repente o senhor Barbosa entrava no café e sua Ex.^ma esposa virando-se pra mim disse-me apressadamente como se fôsse o final de uma conversa que tivesse forçosamente de ser acabada: Então appareça hoje á meia noite em ponto que o Barbosa está nas commissões de vigilancia. E o senhor Barbosa com ares de ter tido uma lucta movimentada mais do que permittia a força humana sentou-se limpando o suor da testa n'um allivio: Felizmente está tudo resolvido! e voltando-se pra mim declarou-me que á meia-noite ia jurar a um sitio secreto que eu não era germanophilo.
As avenidas alli n'aquelles sitios mal iliuminados faziam-me, não sei porquê, lembrar dos apaches de Paris. As linhas dos electricos brilhavam vasias e o guarda-nocturno co'as mãos nas costas, pensando talvez no almoço de depois de amanhã, fitava vagamente o zimborio mais perto da praça de touros que lhe parecia uma cabaça de dois litros e meio de tinto. Eu só tinha frio na cara onde acabava o côco e começava a gola levantada do casaco e pensando se por acaso teria as meias rôtas, cada esquina que eu dobrava me parecia que eu ía do escuro pra um quarto illuminado onde estivesse uma mulher em camisa a pôr o despertador prás horas em que acabassem os serões das commissões de vigilancia. Como sentisse mais frio em cheio nas faces lembrei-me com mais frio ainda que aquelle muro cinzento com as ameias quadradas já tinha sido jardim zoologico com leões que comem carne sem ser cosida. Afinal nem era da Nordisk, era da Cines aquella fita da domadora que era assassinada plo proprio marido dentro da jaula dos tigres. Do lado das tabernas veiu uma brisa sumida e morna de fadinho de melênas com questões revolucionarias; o proprio ramo de loureiro pregado na porta tinha um movimento indeciso de se querer raspar. Mais adeante é que eram as lettras F. G. H. tão enigmaticas como mane, tessel e fare… tão atarracadas e luzidias como o meu amigo e careca senhor Barbosa. Um patamar, dois degraus, mais outros dois degraus, tres lanços pra traz e pra deante sempre a subir, a porta da rua encostada… um candieiro de petroleo em cima de um môxo de cosinha lá onde acabava a passadeira verde do corredor e muitos cheiros a pó de arroz, á esquerda, depois de uma canelada n'um caixote lacrado com Vizeu em cima e cautela em baixo. Depois muita luz, muitos biombos, muitos retratos a carvão assignados Fonseca, muitos espêlhos, muitos lacinhos frisados e ella na cama quadrada a fingir que dormitava n'uma gracinha travêssa de camisa curta pelas vrilhas e peugas de rapaz muito justas no côr de rosa duro. Antes de chegar á cama havia um papel no meio do chão e escripto a lapis—era a conta da engommadeira… sete collarinhos 37, dois 39 e um 40, marca Wagner. No fim da conta em ar confidencial dizia sublinhado: conta particular de madame Barbosa. Apaguei de repente a luz e comecei a atirar pró lado o casaco, o collarinho, a camisa e talvez porque tivesse atirado um pouco mais alto as calças tive o desprazer de ouvir um acorde de piano em dó maior e fuga do gato assustado.
Accordei com um tiro dentro do quarto. O senhor Barbosa tendo aberto a janella dava tiros á queima roupa no bello ar da manhã emquanto gritava para a cama os maiores insultos premeditadamente hostis. Emfim, nem tive tempo de me vestir descançadamente nem sequer de fazer a toillette e até perdi um maço por encetar de "La Deliciosa" com uma caixa de phosphoros de cêra de luxo com senha e tudo. Quando cheguei á rua tinham comparecido alli um sem numero de revolucionarios civis que em nome da lei me intimavam a entregar-me á prisão por ter incorrido no crime de ser germanophilo na pessôa de um funccionario do Estado e casado.