1893
Como e porque sou romancista faz{5} parte da collecção de trabalhos ineditos, mais ou menos incompletos, que mais tarde, sob o titulo geral de Obras Posthumas, hão de vir á luz da publicidade.
Todavia, sendo essa publicação muito morosa e difficil, entendi não dever por mais tempo conservar occultos aos leitores certos trabalhos, que naturalmente satisfazem a curiosidade publica. Assim, antecipo hoje o apparecimento desta autobiographia litteraria, em que sob a fórma de carta, José de Alencar expõe, singela e sinceramente, todas as circumstancias da sua vida, que, influindo-lhe no espirito, despertaram a sua extraordinaria e vigorosa vocação de escriptor, e principalmente de romancista.
Rio, abril de 93.
MARIO ALENCAR.{6}
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I
Meu amigo,
Na conversa que tivemos, ha dias, exprimiu V. o desejo de colher acerca da minha peregrinação litteraria, alguns pormenores dessa parte intima de nossa existencia, que geralmente fica á sombra, no regaço da familia, ou na reserva da amizade.
Sabendo de seus constantes esforços para enriquecer o illustrado author do Diccionario Bibliographico, de copiosas noticias que elle difficilmente obteria á respeito de escriptores brazileiros, sem a valiosa coadjuvação de tão erudito glossologo; pensei que me não devia eximir de satisfazer seu desejo e trazer a minha pequena quota para a amortização desta divida de nossa ainda infante litteratura.