Minha mãe e minha tia se occupavam com trabalhos de costuras, e as amigas para não ficarem ociosas as ajudavam. Dados os primeiros momentos á conversação, passava-se á leitura e era eu chamado ao lugar de honra.
Muitas vezes, confesso, essa honra me arrancava bem á contra gosto de um somno começado ou de um folguedo querido; já naquella idade a reputação é um fardo e bem pesado.{20}
Lia-se até a hora do chá, e topicos havia tão interessantes que eu era obrigado á repetição. Compensavam esse excesso, as pausas para dar logar ás expansões do auditorio, o qual desfazia-se em recriminações contra algum máo personagem, ou acompanhava de seus votos e sympathias o heróe perseguido.
Uma noite, daquellas em que eu estava mais possuido do livro, lia com expressão uma das paginas mais commoventes da nossa bibliotheca. As senhoras, de cabeça baixa, levavam o lenço ao rosto, e poucos momentos depois não poderam conter os soluços que rompiam-lhes o seio.
Com a voz afogada pela commoção e a vista empanada pelas lagrimas, eu tambem cerrando ao peito o livro aberto, disparei em pranto e respondia com palavras de consolo ás lamentações de minha mãe e suas amigas.
Nesse instante assomava á porta um parente nosso, o Revd. Padre Carlos Peixoto de Alencar, já assustado com o choro que ouvira ao entrar—Vendo-nos á todos naquelle estado de afflicção, ainda mais perturbou-se:
—Que aconteceu? Alguma desgraça? perguntou arrebatadamente.
As senhoras, escondendo o rosto no lenço para occultar do Padre Carlos o pranto e evitar os{21} seus remoques, não proferiram palavra. Tomei eu á mim responder:
—Foi o páe de Amanda que morreu! disse mostrando-lhe o livro aberto.
Comprehendeu o Padre Carlos e soltou uma gargalhada, como elle as sabia dar, verdadeira gargalhada homerica, que mais parecia uma salva de sinos á repicarem do que riso humano. E apoz esta, outra e outra, que era elle inexgotavel, quando ria de abundancia de coração, com o genio prazenteiro de que a natureza o dotara.