Martim Soares Moreno chegou a mestre de campo e foi um dos excedentes cabos portuguezes que libertaram o Brazil da invasão hollandeza. O Ceará deve honrar sua memoria como de um varão prestante e seu verdadeiro fundador, pois que o primeiro povoado á foz do rio Jaguaribe foi apenas uma tentativa frustrada.
Este é o argumento historico da lenda; em notas especiaes se indicarão alguns outros subsidios recebidos dos chronistas do tempo.
Ha uma questão historica, relativa a este assumpto; fallo da patria do Camarão, que um escriptor pernambucano quiz pôr em duvida, tirando a gloria ao Ceará para a dar á sua provincia.
Este ponto aliás somente contestado nos tempos modernos pelo Sr. commendador Mello em suas Biographias, me parece sufficientemente elucidado já, depois da erudita carta do Sr. Basilio Quaresma Torreão, publicada no Mercantil n.° 26 de 26 de Janeiro de 1860, 2.ª pagina.
Entretanto farei sempre uma observação.
Em primeiro logar a tradicção oral é uma fonte importante da historia, e ás vezes a mais pura e verdadeira. Ora na provincia de Ceará em Sobral não só se referiam entre gente do povo noticias do Camarão, como existia lima velha mulher que se dizia d'elle sobrinha. Essa tradicção foi colhida por diversos escriptores, entre elles o conspicuo auctor da Corographia Brasilica.
O auctor do Valoroso Lucideno é dos antigos o unico que positivamente affirma ser Camarão filho de Pernambuco; mas além de encontrar essa asserção a versão de outros escriptores de nota, accresce que Berredo explica perfeitamente o dito d'aquelle escriptor, quando falla da expedição de Pero Coelho de Souza a Jaguaribe, sitio d'aquelle tempo e tambem no de hoje da jurisdicção de Pernambuco.
Outro ponto é necessario esclarecer para que não me censurem de infiel á verdade historica. É a nação de Jacaúna e Camarão que alguns pretendem ter sido a tabajara. Ha n'isso manifesto engano.
Em todas as chronicas se falla das tribus de Jacaúna e Camarão, como habitantes do littoral, e tanto que auxiliam a fundação do Ceará, como já haviam auxiliado a da Nova-Lisboa em Jaguaribe. Ora a nação, que habitava o littoral entre o Parnahyba e o Jaguaribe ou Rio-Grande, era a dos Pytiguaras, como attesta Gabriel Soares. Os Tabajaras. habitavam a serra de Ibyapa, e portanto o interior.
Como chefes dos Tabajaras são mencionados Mel Redondo no Ceará e Grão Deabo em Piauhy. Esses chefes foram sempre inimigos irreconciliaveis e rancorosos dos portuguezes, e alliados dos francezes do Maranhão, que penetraram até Ibyapaba. Jacaúna e Camarão são conhecidos pela sua alliança firme com os portuguezes.