Gonçalves Dias é o poeta nacional por excellencia ninguem lhe disputa na opulencia da imaginação, no fino lavor do verso, no conhecimento da natureza brazileira e dos costumes selvagens. Em suas poesias americanas aproveitou muitas das mais lindas tradicções dos indigenas; e em seu poema não concluido dos Timbiras, propoz-se a descrever a epopea brazileira.

Entretanto, os selvagens de seu poema falam uma linguagem classica, o que lhe foi censurado por outro poeta de grande estro, o dr. Bernardo Guimarães; elles exprimem idéas proprias do homem civilisado, e que não é verosimil tivessem no estado da natureza.

Sem duvida que o poeta brazileiro tem de traduzir em sua lingua as idéas, embora rudes e grosseiras, dos indios; mas n'essa traducção está a grande difficuldade; é preciso que a lingua civilisada se molde quanto possa á singeleza primitiva da lingua barbara; e não represente as imagens e pensamentos indigenas senão por termos e phrases que ao leitor pareçam naturaes na bôcca do selvagem.

O conhecimento da lingua indigena é o melhor criterio para a nacionalidade da litteratura. Elle nos dá não só o verdadeiro estylo, como as imagens poeticas do selvagem, os modos de seu pensamento, as tendencias de seu espirito, e até as menores particularidades de sua vida. É n'essa fonte que deve beber o poeta brazileiro; é d'ella que ha de sahir o verdadeiro poema nacional, tal como eu o imagino.

Commettendo portanto o grande arrojo, aproveitei o ensejo de realisar as idéas que me vagueavam no espirito, e não eram ainda plano fixo; a reflexão consolidou-as e robusteceu.

Na parte escripta da obra foram ellas vasadas em grande copia. Se a investigação laboriosa das bellezas nativas feita sobre imperfeitos e espurios diccionarios exhauria o espirito; a satisfação de cultivar essas flores agrestes da poesia brazileira, deleitava. Um dia porém fatigado da constante e aturada meditação ou analyse para descobrir a etymologia d'algum vocabulo, assaltou-me um receio.

Todo este improbo trabalho que ás vezes custava uma só palavra, me seria levado á conta? Saberiam que esse escropulo de ouro fino, tinha sido desentranhado da profunda camada, onde dorme uma raça extincta? Ou pensariam que fôra achado na superficie e trazido ao vento da facil inspiração?

E sobre esse, logo outro receio.

A imagem ou pensamento com tanta fadiga esmerilhados, seriam apreciados em seu justo valor, pela maioria dos leitores? Não os julgariam inferiores a qualquer das imagens em voga, usadas na litteratura moderna?

Occorre-me um exemplo tirado d'este livro. Guia chamavam os indigenas, senhor do caminho, pyguara. A belleza da expressão selvagem em sua traducção litteral e etymologica, me parece bem saliente. Não diziam sabedor do caminho, embora tivessem termo proprio, coaub, porque essa phrase não exprimiria a energia de seu pensamento. O caminho no estado selvagem não existe; não é cousa de saber. O caminho faz-se na occasião da marcha atravez da floresta ou do campo, e em certa direcção: aquelle que o tem e o dá, é realmente senhor do caminho.