O velho soabriu as pesadas palpebras, e passou do neto ao extrangeiro um olhar baço. Depois o peito arquejou e os labios murmuraram:
—Tupan quiz que estes olhos vissem antes de se apagarem o gavião branco junto da narseja.
O abaeté derrubou a fronte aos peitos, e não falou mais, nem mais se moveu.
Poty e Martim julgaram que elle dormia e se afastaram com respeito para não perturbar o repouso de quem tanto obrára na longa vida. Iracema que se banhava na proxima cachoeira, veiu-lhes ao encontro, trazendo na folha da taioba favos do mel purissimo.
Discorreram os amigos pelas floridas encostas até que as sombras da montanha se extenderam pelo valle. Tornaram então ao logar onde tinham deixado o Maranguab.
O velho ainda lá estava na mesma attitude, com a cabeça derrubada ao peito e os joelhos encostados á fronte. As formigas subiam pelo seu corpo; e os tuins adejavam em torno e pousavam-lhe na calva.
Poty poz a mão no craneo do velho e conheceu que era finado: morrera de velhice. Então o chefe pytiguara entoou o canto da morte; e depois foi á cabana buscar o camocim, que transbordava com as castanhas do cajú. Martim contou cinco vezes cinco mãos.
Entanto Iracema colhia na floresta a andiroba, de que foi ungido o corpo do velho no camocim, onde a mão piedosa do neto o encerrou. O vaso funebre ficou suspenso ao tecto da cabana.
Depois que plantou ortiga em frente á porta, para deffender contra os animaes a oca abandonada, Poty despediu-se triste d'aquelles logares, e tornou com seus companheiros á borda do mar.