XIV
O PRISIONEIRO

Quando os selvagens se precipitavão sobre o inimigo, que já não se defendia e se confessava vencido, o velho cacique adiantou-se; e deixando cahir a mão sobre o hombro de Pery, fez um movimento energico com o braço direito decepado.

Este movimento exprimia que Pery era seu prisioneiro, que lhe pertencia como o primeiro que tinha posto a mão sobre elle, como o seu vencedor; e que todos devião respeitar o seu direito de propriedade, o seu direito da guerra.

Os selvagens abaixárão as armas, e não derão um passo; esse povo barbaro tinha seus costumes e suas leis; e uma dellas era esse direito exclusivo do vencedor sobre o seu prisioneiro de guerra, essa conquista do fraco pelo forte.

Tinhão em tanta conta a gloria de trazerem um captivo de combate e sacrifica-lo no meio das festas e ceremonias que costumavão celebrar, que nenhum selvagem matava o inimigo que se rendia; fazia-o prisioneiro.

Quanto a Pery, vendo o gesto do cacique e o effeito que produzia, a sua physionomia expandio-se; a humildade tingida, a posição supplicante que por um esforço supremo conseguira tomar, desappareceu immediatamente.

Ergueu-se; e com um soberbo desdem estendeu os punhos aos selvagens que por mandado do velho se dispunhão a ligar-lhe os braços; parecia antes um rei que dava uma ordem aos seus vassallos, do que um captivo que se sujeitava aos vencedores; tal era a altivez do seu porte, e o desprezo com que encarava o inimigo.

Os Aymorés, depois de ligarem os punhos do prisioneiro, o conduzirão a alguma distancia a sombra de uma arvore, e ahi o prendêrão com uma corda de algodão matizada de varias côres, a que os Guaranys chamavão mussurana.

Depois, ao passo que as mulheres enterravão os mortos, reunirão-se em conselho, presididos pelo velho cacique, a quem todos ouvião com respeito, e respondião cada um por sua vez.

Durante o tempo que os guerreiros fallavão, a pequena india escolhia os melhores fructos, as bebidas mais bem preparadas, e offerecia ao prisioneiro, a quem estava encarregada de servir.