Havia nos olhos da menina tanto fogo, tanta lubricidade no seu sorriso; as ondulações morbidas do seu corpo trahião tantos desejos e tanta voluptuosidade, que o prisioneiro comprehendeu immediatamente qual era a missão dessa enviada da morte, dessa esposa do tumulo, destinada a embellezar os ultimos momentos da vida!
O indio voltou o rosto com desdem; recusava as flôres como tinha recusado os fructos; repellia a embriaguez do prazer como havia repellido a embriaguez do vinho.
A menina enlaçou-o com os braços, murmurando palavras entrecortadas de uma lingua desconhecida, da lingua dos Aymorés, que Pery não entendia; era talvez uma supplica, ou um consolo com que procurava mitigar a dôr do vencido.
Mal sabia que o indio ia morrer feliz e esperava o supplicio como a realisação de um sonho doce, como a satisfação de um desejo querido e por muito tempo afagado com amor.
Mas podia ella, pobre selvagem, presentir e mesmo comprehender semelhante cousa? O que sabia era que Pery ia ser morto; que ella devia suavisar-lhe a ultima hora; e cumpria esse dever com um certo contentamento.
Pery sentindo os braços da menina cingirem seu collo, repellio-a vivamente para longe de si; e voltando procurou ver por entre as folhas se descobria os preparativos que os Aymorés fazião para o sacrificio.
Tardava-lhe o momento supremo em que devia ser immolado á colera e á vingança dos inimigos; sua altivez revoltava-se contra essa humilhação do captiveiro.
A india continuava a olha-lo tristemente, e sem comprehender porque a repellia; ella era linda e desejada por todos os jovens guerreiros de sua tribu; seu pai, o velho cacique, tinha-a destinado para o mais valente prisioneiro, ou para o mais forte dos vencedores.
Depois de conservar-se muito tempo nesta posição, a menina adiantou-se de novo, tomou um vaso cheio de cauim, e apresentou-o a Pery sorrindo e quasi supplicante.
Ao gesto de recusa que fez o indio, ella deitou o vaso no rio, e escolhendo sobre as folhas um cardo vermelho e doce como um favo de mel, estendeu a mão e tocou com o fructo a bocca do prisioneiro.