Quando Loredano afastou-se de João Feio que o acabava de ameaçar, chamou quatro companheiros em quem mais confiava, e retirou-se com elles para a despensa.

Fechou a porta afim de interceptar a communicação com os aventureiros, e poder tranquillamente tratar o negocio que tinha em mente.

Nesse curto instante havia feito uma modificação no seu plano da vespera; as palavras de ameaça ha pouco proferidas lhe revelárão que o descontentamento começava a lavrar. Ora, o italiano não era homem que recuasse diante de um obstaculo, e deixasse roubarem-lhe a esperança, que nutria desde tanto tempo.

Resolveu trazer as cousas rapidamente e executar naquelle mesmo dia o seu intento: seis homens fortes e destemidos bastavão para levar ao cabo a empreza que projectára.

Tendo fechado a porta, guiou os quatro aventureiros á sala que tocava com o oratorio, e onde Martim Vaz continuava a sua obra de demolição, minando a parede que os separava da familia.

—Amigos, disse o italiano, estamos n'uma posição desesperada; não temos força para resistir aos selvagens, e mais dia menos dia havemos de succumbir.

Os aventureiros abaixarão a cabeça e não respondêrão; sabião que aquella era a triste verdade.

—A morte que nos espera é horrivel; serviremos de pasto a esses barbaros que se alimentão de carne humana; nossos corpos sem sepultura cevarão os instinctos ferozes dessa horda de cannibaes!...

A expressão do horror se pintou na physionomia daquelles homens, que sentirão um calafrio percorrer-lhes os membros e penetrar até á medulla dos ossos.

Loredano demorou um instante o seu olhar perspicaz sobre esses rostos decompostos: