Quando o velho acabou de fallar encarou o prisioneiro, e recuando dous passos elevou lentamente a pesada clava que empunhava na mão esquerda. Os Aymorés anciosos esperavão; as velhas com as suas navalhas de pedra estremecião de impaciencia; as jovens indias sorrião, emquanto a noiva do prisioneiro voltava o rosto para não ver o espectaculo horrivel que ia apresentar-se.

Nesse momento Pery levando as duas mãos aos olhos cobrio o rosto, e curvando a cabeça ficou algum tempo nessa posição, sem fazer um movimento que revelasse a menor perturbação.

O velho sorrio.

—Tens medo!

Ouvindo estas palavras, Pery ergueu a cabeça com ar senhoril. Uma expressão de jubilo e serenidade irradiava no seu rosto, dir-se-hia o extasi dos martyres da religião que na ultima hora, através do tumulo, entrevêm a felicidade suprema.

A alma nobre do indio prestes a deixar a terra parecia exhalar já do seu involucro; e pousando nos seus labios, nos seus olhos, na sua fronte, esperava o momento de lançar-se no espaço para ir se abrigar no seio do Creador.

Erguendo a cabeça, fitou os olhos no céo, com se a morte que ia cahir sobre elle fosse uma visão encantadora que descesse das nuvens sorrindo-lhe. Era que nesse ultimo sonho da existência via a linda imagem de Cecilia, feliz, alegre e contente; via sua senhora salva.

—Fere!... disse Pery ao velho cacique.

Os instrumentos retumbarão de novo; os gritos e os cantos se confundirão com aquelles sons roucos, e rebóarão pela floresta como o trovão rolando pelas nuvens.

A tagapema coberta de plumas gyrou no ar scintillando aos raios de sol que ferião as côres brillantes.