Entretanto na occasião em que o atavão á fogueira, um incidente espertou de repente a sensibilidade desse homem embrutecido pela idéa da morte, e pela convicção de que não podia escapar a ella.

Um dos aventureiros, um dos cinco complices da ultima conspiração, chegou-se a Loredano, e tirando-lhe a cinta que prendia o seu gibão, mostrou-a aos seus companheiros. O italiano vendo-se separado do seu thesouro sentio uma dôr muito mais forte do que a que ia soffrer na fogueira; para elle não havia supplicio, não havia martyrio que igualasse a este.

O que o consolava na sua ultima hora era a idéa de que esse segredo que possuia, e do qual não podéra utilisar-se, ia morrer com elle, e ficaria perdido para todos; que ninguem gozaria do thesouro que lhe escapava.

Por isso apenas o aventureiro tirou-lhe a cinta onde guardava o roteiro, soltou um rugido de colera e de raiva impotente; seus olhos injectárão-se de sangue, e seus membros crispando-se ferirão-se contra as cordas que os ligavão ao poste.

Era horrivel de ver nesse momento; seu aspecto tinha a expressão brutal e feroz de um hydrophobo, seus labios espumavão, silvando como a serpente; e seus dentes ameaçavão de longe os seus algozes como as presas do jaguar.

Os aventureiros rirão-se do desespero do frade por ver roubarem-lhe o seu precioso thesouro, e divertirão-se em augmentar-lhe o supplicio, promettendo que apenas livres dos Aymorés farião uma expedição ás minas de prata.

A raiva do italiano redobrou quando Martim Vaz atou a cinta ao corpo, e disse-lhe sorrindo:

—Bem sabeis o proverbio: «O bocado não é para quem o faz.»

VI
TREGOA

Erão oito horas da noite.