Tremia lembrando-se da dôr que sua senhora ia sentir quando soubesse a desgraça de que elle fôra testemunha na vespera; e não se achava com forças de responder ao primeiro olhar de surpreza que a menina lançaria em torno de si logo que despertasse no meio do deserto.

Emquanto durou o somno, Pery, com o braço apoiado á borda da canôa e o corpo reclinado sobre o rosto da menina, esperando com anciedade o momento que elle desejava e temia ao mesmo tempo, velava sobre Cecilia com um cuidado e uma solicitude admiravel.

A mãi mais extremosa não se desvelaria tanto por seu filho, como esse amigo dedicado por sua senhora; uma restea de sol que, enfiando-se pelas folhas, vinha brincar no rosto da menina, um passarinho que cantava sobre um ramo do arbusto, um insecto que saltava na relva, tudo elle afastava para não perturbar o seu repouso.

Cada minuto que passava era uma nova inquietação para elle; porém era tambem um instante mais de socego e de tranquillidade que a menina gozava, antes de saber a desgraça que pesava sobre ella, e que a privára de sua familia.

Um longo suspiro elevou o seio de Cecilia; seus lindos olhos azues se abrirão e cerrarão, deslumbrados pela claridade do dia; ella passou a mão delicada pelas palpebras rosadas, como para afugentar o somno, e seu olhar limpido e suave foi pousar no rosto de Pery. Soltou um gritozinho de prazer, e sentando-se com vivacidade, lançou um olhar de surpreza e admiração em torno da especie de pavilhão de folhagem que a cercava; parecia interrogar as arvores, o rio, o céo; mas tudo emmudecia.

Pery não se animava a pronunciar uma palavra, via o que se passava n'alma de sua senhora, e não tinha a coragem de dizer a primeira letra do enigma que ella não tardaria a comprehender.

Por fim, a menina, baixando a vista para ver onde estava, descobrio a canôa, e lançando um volver rapido para o vasto leito do Parahyba que se espreguiçava indolentemente pela floresta, ficou branca como a cambraia do seu roupão.

Voltou-se para o indio com os olhos extremamente dilatados, os labios tremulos, a respiração presa, o seio offegante, e supplicando com as mãozinhas juntas:

—Meu pai!... meu pai!... exclamou soluçando.

O selvagem deixou cahir a cabeça sobre o peito e escondeu o rosto nas mãos.