Cecilia caminhou até á beira do rio, e com os olhos estendidos pelo horizonte, que ella suppunha occultar o lugar em que habitára, ajoelhou e fez uma oração longa e ardente.

Quando ergueu-se, estava mais calma: a dôr tinha-se repassado do consolo sublime da religião, dessa doçura e suavidade que infiltra no coração a esperança de uma vida celeste, que reune aquelles que se amárão na terra.

Ella pôde então reflectir sobre o que se tinha passado na vespera; e procurou lembrar-se das circumstancias que havião precedido á morte de sua familia. Todas as suas recordações, porém, chegavão unicamente até o momento em que, já meia adormecida, fallava a Pery, e dizia essa palavra ingénua e innocente que lhe escapára do intimo d'alma.

—Antes morrer como Isabel!

Lembrando-se dessa palavra, córou; e vendo-se só no deserto com Pery, sentio uma inquietação vaga e indefinida, um sentimento de temor e de receio, cuja causa não sabia explicar.

Seria essa desconfiança subita proveniente da colera que ella sentira, porque o indio salvára a sua vida, e a arrancára da desgraça que tinha destruido toda a sua familia?

Não; não era essa a causa: ao contrario Cecilia conhecia que fôra injusta para com seu amigo que tinha talvez feito impossiveis por ella; e a não ser o receio instinctivo que se apoderára involuntariamente de sua alma, já o teria chamado para pedir-lhe perdão daquellas palavras duras e crueis.

A menina ergueu os olhos timidos e encontrou o olhar triste e supplice de Pery: não pôde resistir; esqueceu os seus receios, e um tenue sorriso fugio-lhe pelos labios.

—Pery!...

—O indio estremeceu, mas desta vez de alegria e de contentamento: veio cahir aos pés de sua senhora, que elle encontrava de novo boa como sempre tinha sido.