O indio, antes de partir, circulou a alguma distancia o lugar onde se achava Cecilia de uma corda de pequenas fogueiras feitas de louro, de canella, uratahy e outras arvores aromaticas.
Desta maneira tornava aquelle retiro impenetravel: o rio de um lado, e do outro as chammas que afugentarião os animaes damnihos, e sobretudo os reptis, o fumo odorifero que se escapava das fogueiras afastaria até mesmo os insectos. Pery não soffreria que uma vespa e uma mosca sequer offendesse a cutis de sua senhora, e sugasse uma gota desse sangue precioso; por isso tomára todas essas precauções.
Cecilia devia pois ficar tranquilla como se estivesse em um palacio; e de facto era um palacio de rainha do deserto esse sombrio cheio de frescura a que a relva servia de alcatifa, as folhas de docel, as grinaldas em flôres de cortinas, os sabiás de orchestra, as aguas de espelho, e os raios do sol de arabescos dourados.
A menina vio de longe o desvelo com que seu amigo tratava de sua segurança, e acompanhou-o com o olhar até o momento em que elle desappareceu no mais espesso da matta.
Foi então que ella sentio a soledade estender-se em torno e envolvê-la; insensivelmente levou a mão ao seio e tirou a flôr que Pery lhe tinha dado.
Apezar de sua fé christã, não pôde vencer essa innocente superstição do coração: pareceu-lhe, olhando o iris, que já não estava só e que a alma de Pery a acompanhava.
Qual é o seio de dezaseis annos que não abriga uma dessas illusões encantadoras, nascidas com o fogo dos primeiros raios do amor? Qual é a menina que não consulta o oraculo de um malmequer, e não vê n'uma borboleta negra a sibylla fatidica que lhe annuncia a perda da mais bella esperança?
Como a humanidade na infancia, o coração nos primeiros annos tem tambem a sua mythologia; mythologia mais graciosa e mais poetica do que as creações da Grecia; o amor é o seu Olympo povoado de deosas ou deoses de uma belleza celeste e immortal.
Cecilia amava; a gentil e innocente menina procurava illudir-se a si mesma, attribuindo o sentimento que enchia sua alma a uma affeição fraternal, e occultando, sob o doce nome de irmão, um outro mais doce que titillava nos seus labios, mas que seus labios não ousavão pronunciar.
Mesmo só, de vez em quando um pensamento que passava no seu espirito, incendia-lhe as faces de rubor, fazia palpitar-lhe o seio e pender mollemente a cabeça, como a haste da planta delicada quando o calor do sol fecunda a florescencia.