—Vê, senhora: a flor que Pery te deu já murchou porque sahio de sua planta; e a flôr estava no teu seio. Pery na taba dos brancos, ainda mesmo junto de ti, será como esta flôr; tu terás vergonha de olhar para elle.

—Pery!... exclamou a menina offendida.

—Tu és boa; mas todas as que têm a tua côr não têm o teu coração. Lá, o selvagem seria um escravo dos escravos; e quem nasceu o primeiro póde ser teu escravo; mas é senhor dos campos, e mando aos mais fortes.

Cecilia, admirando o reflexo de nobre orgulho que brilhava na fronte do indio, sentio que não podia combater a sua resolução dictada por um sentimento elevado. Reconheceu que havia no fundo de suas palavras uma grande verdade, que o seu instincto adivinhava; ella tinha a prova na revolução que se operára no seu espirito, vendo Pery no meio do deserto, livre, grande, magestoso com um rei.

Qual não seria pois a consequencia dessa outra transição, muito mais brusca? N'uma cidade, no meio da civilisação, o que seria um selvagem, senão um captivo, tratado por todos com desprezo?

No intimo de sua alma quasi que approvava a resolução de Pery; mas não podia afazer-se á idéa de perder seu amigo, seu companheiro, a unica affeição que talvez ainda lhe restava no mundo.

Durante esse tempo, o indio preparava a simples refeição que lhes offerecia a natureza. Deitou sobre uma folha larga os fructos que tinha colhido: erão os aracás, os jambos corados, os ingás de polpa macia, os cocos de varias especies.

A outra folha continha favos de uma pequena abelha, que fabricára a sua colmeia no tronco de uma cabuiba, de sorte que o mel puro e claro tinha perfumes deliciosos: dir-se-hia mel de flôres.

O indio tornou concava uma palma larga e encheu-a com o succo do ananaz, cuja fragrancia é como a essencia do sabor: era o vinho que devia servir ao banquete frugal.

N'uma segunda palma tambem concava, apanhou a agua crystallina da corrente que murmurava a alguns passos; devia servir para Cecilia lavar as mãos depois da refeição.