Entretanto, ao redor tudo estava quieto; as estrellas recamavão o azul do céo; a viração aninhava-se nas folhas das arvores; os murmurios doces da solidão cantavão o hymno da noite.

Cecilia adormeceu no seu berço, murmurando uma prece.

Era alta noite; sombras espessas cobrião as margens do Parahyba.

De repente um rumor surdo e abafado, como de um tremor subterraneo, propagando-se por aquella solidão, quebrou o silencio profundo do ermo.

Pery estremeceu: ergueu a cabeça e estendeu os olhos pela larga esteira do rio, que, enroscando-se como uma serpente monstruosa de escamas prateadas, ia perder-se no fundo negro da floresta.

O espelho das aguas, liso e polido como um crystal, reflectia a claridade das estrellas, que já desmaiavão com a aproximação do dia; tudo estava immovel e quêdo.

O indio curvou-se sobre a borda da canôa, e de novo applicou o ouvido; pela superficie do rio rolava um som estrepitoso, semelhante ao quebrar-se da catadupa precipitando-se do alto dos rochedos.

Cecilia dormia tranquillamente; sua respiração ligeira resoava com a harmonia doce e subtil das folhas da canna quando estremecem ao sopro tenue da aragem.

Pery lançou um olhar de desespero para as margens que se destacavão a alguma distancia sobre a corrente placida do rio. Quebrou o laço que prendia a canôa, e impellio-a para a terra com toda a força do remo, que fendeu a agua rapidamente.

Á beira do rio elevava-se uma bella palmeira, cujo alto tronco era coroado pela grande cupola verde, formada com os leques de suas folhas lindas e graciosas. Os cipós e as parasitas, engrazando-se pelos ramos das arvores vizinhas, descião até o chão, formando grinaldas e cortinas de folhagem, que se prendião ás hastes da palmeira.