Ayres Gomes levantou-se furioso, e saltando sobre o seu catre, agarrou o espadão que tinha á cabeceira.
—Que ides fazer? gritou mestre Nunes.
—Mata-lo, e desta vez ás direitas; que não torne. Esqueceis que vai longe?
—É verdade! murmurou o escudeiro rangendo os dentes de raiva.
Ouvio-se um ligeiro rumor na porta; os dous amigos o attribuîrão ao vento e não se voltárão sentados em face um do outro, continuárão em voz baixa a sua conversa interrompida pela brusca revelação de Nunes.
Entretanto fóra passavão-se cousas que devião excitar a attenção do digno escudeiro. O rumor que ouvira fôra produzido pela volta que Ruy dera á chave, fechando a porta.
O aventureiro tinha ouvido todo a conversa; a principio aterrado, cobrou animo, e lembrou-se que em todo o caso era bom estar senhor do segredo do italiano para qualquer emergencia futura. Confiado nessa excellente idéa, Ruy metteu a chave no peito do gibão, e foi reunir-se a seu companheiro que estava de vigia junto da escada.
Esperava por Loredano, que devia entrar na casa alta noite, para dirigir toda essa trama que havia urdido com uma intelligencia superior.
O italiano tinha facilmente illudido a D. Diogo de Mariz; sabia que o ardente cavalheiro ia de rota batida, e que não se demoraria em caminho por motivo algum.
A tres leguas do Paquequer, inventou um pretexto de ter-se quebrado a cilha de sua cavalgadura, e parou para arranja-la; emquanto D. Diogo e seus companheiros pensavão que os seguia de perto, elle tinha voltado sobre os passos, e escondido nas vizinhanças esperava que a noite se adiantasse.