Era cousa original o pensamento deste homem. Ao passo que commettia um crime, tinha a lembrança delicada de querer suavisar a desgraça da menina fazendo que nada lhe faltasse na viagem incommoda que tinha de fazer.
Quando tudo estava preparado abrio a portinha que dava para o jardim, e estudou o caminho que tinha de seguir. Era preciso; porque apenas tomasse Cecilia nos braços devia partir e chegar d'uma só corrida direita, rapida e cega.
A porta ficava n'um canto do aposento, defronte do vão que havia entre o leito e a parede; collocado neste lugar, não tinha senão um movimento a fazer, agarrar a menina e lançar-se fóra do aposento.
Na occasião em que elle se aproximava ouvio-se um gemido, quasi um suspiro, abafado e cheio de angustia.
Os cabellos irriçárão-se sobre a fronte do italiano; gotas de suor frio e gelado sulcárão as suas faces pallidas e contrahidas.
A pouco e pouco foi sahindo do estupor que o paralysára, e volvendo lentamente ao redor de si uns esgares d'olhos allucinados.
Nada! Nem um insecto parecia acordado na solidão profunda da noite em que tudo dormia excepto o crime, o verdadeiro duende da terra, o máo genio das crenças de nossos pais.
Tudo estava em socego; até o vento parecia se ter abrigado no calice das flôres e adormecido neste berço perfumado, como n'um regaço de amante.
O italiano restabeleceu-se do violento abalo que soffrêra, deo um passo, e inclinou-se sobre o leito.
Cecilia sonhava neste momento.