O braço de Loredano estendeu-se sobre o leito; porém a mão que se adiantava e ia tocar o corpo de Cecilia estacou no meio do movimento, e subitamente impellida foi bater de encontro á parede.

Uma setta, que não se podia saber d'onde vinha, atravessara o espaço com a rapidez de um raio, e antes que se ouvisse o sibillo forte e agudo pregára a mão do italiano no muro do aposento.

O aventureiro vacillou, e abateu-se por detrás da cama; era tempo, porque uma segunda setta, despedida com a mesma força e a mesma rapidez, cravava-se no lugar onde ha pouco se projectava a sombra de sua cabeça.

Passou-se então ao redor da innocente menina adormecida na isenção de sua alma pura uma scena horrivel, porém silenciosa.

Loredano nos transes da dôr por que passava comprehendêra o que succedia; tinha adivinhado naquella setta que o ferira a mão de Pery; e sem ver, sentia o indio aproximar-se terrivel de odio, de vingança, de colera e desespero pela offensa que acabava de soffrer sua senhora.

Então o reprobo teve medo; erguendo-se sobre os joelhos arrancou convulsivamente com os dentes a setta que pregava sua mão á parede, e precipitou-se para o jardim, cego, louco e delirante.

Nesse mesmo instante, dous segundos talvez depois que a ultima flecha cahira no aposento, a folhagem do oleo que ficava fronteiro á janella de Cecilia agitou-se e um vulto embalançando-se sobre o abysmo, suspenso por um fragil galho da arvore, veio cahir sobre o peitoril.

Ahi agarrando-se á hombreira saltou dentro do aposento com uma agilidade extraordinaria; a luz dando em cheio sobre elle desenhou o seu corpo flexivel e as suas fórmas esbeltas.

Era Pery.

O indio avançou-se para o leito, e vendo sua senhora salva respirou; com effeito a menina, a meio despertada pelo rumor da fugida de Loredano, voltára-se do outro lado e continuára o somno forte e reparador como é sempre o somno da juventude e da innocencia.