Depois da partida de Loredano, e da conversa que teve com Alvaro, certo de que sua senhora já não corria perigo, e de que os dous complices do italiano ião ser expulsos como elle, o indio não pensando mais senão no ataque dos Aymorés partio immediatamente.
O seu pensamento era ver se descobrisse pelas vizinhanças do Paquequer indicios da passagem de alguma tribu da grande raça guarany a que elle pertencia; seria um amigo e um alliado para D. Antonio de Mariz.
O odio inveterado que havia entre as tribus da grande raça e a nação degenerada dos Aymorés, justificava a esperança de Pery; mas infelizmente, tendo percorrido todo o dia a floresta, não encontrou o menor vestigio do que procurava.
O fidalgo estava pois reduzido ás suas proprias forças; mas embora fossem estas pequenas, o indio não desanimou; tinha consciencia de si; e sabia que na ultima extremidade a sua dedicação por Cecilia lhe inspiraria meios de salvar a ella e a tudo que ella amava.
Voltou á casa já noite fechada: foi ter com Alvaro; perguntou-lhe o que era feito dos dous aventureiros; o cavalheiro disse-lhe que D. Antonio de Mariz recusára crer na accusação.
De facto, o fidalgo leal, habituado ao respeito e á fidelidade de seus homens, não admittia que se concebesse uma suspeita sem provas; entretanto, como a palavra de Pery tinha para elle toda a valia, ficára de ouvir de sua bocca a narração do que presenciára, para conhecer o peso que devia dar a semelhante accusação.
Pery retirou-se inquieto e arrependido de não ter persistido no seu primeiro projecto; emquanto estes dous homens que elle já suppunha expulsos estivessem ali, sabia que um perigo pairava sobre a casa.
Assim resolveu não dormir; tomou o seu arco e sentou-se na porta de sua cabana; apezar de possuir a clavina que lhe dera D. Antonio, o arco era a arma favorita de Pery; não demandava tempo para carregar; não fazia o menor estrepito; lançava quasi instantaneamente dous, tres tiros: e sua flecha era tão terrivel e tão certeira como a bala.
Passado muito tempo o indio ouvio cantar uma coruja do lado da escada; esse canto causou-lhe estranheza por duas razões: a primeira, porque era mais sonoro do que é o cacarejar daquella ave agoureira; a segunda, porque em vez de partir do cimo de uma arvore sahia do chão.
Esta reflexão o fez levantar; desconfiou da coruja que tinha habitos differentes de suas companheiras; quiz conhecer a razão desta singularidade.