Emquanto trocavão essas duas perguntas, a mão de Pery correndo pela lamina de aço tinha conhecido que outra mão segurava o cabo do punhal.
O indio sahio do alpendre, e dirigio-se ao quarto de Ayres Gomes; a porta estava fechada, e junto della tinhão collocado um grande montão de palha.
Tudo isto denunciava um plano prestes a realisar-se; Pery comprehendia, e tinha medo de já não ser tempo para destruir a obra dos inimigos.
Que fazia aquelle homem deitado que fingia dormir, e que tinha o punhal desembainhado na mão como se estivesse prompto a ferir? Que significava aquella pergunta da hora e aquelle aviso de que todos dormião? Que queria dizer a palha encostada á porta do escudeiro?
Não restava duvida; havia ali homens que esperavão um signal para matarem seus companheiros adormecidos, e deitarem fogo á casa; tudo estava perdido se o plano não fosse immediatamente destruido.
Cumpria acordar os que dormião, preveni-los do perigo que corrião, ou ao menos prepara-los para se defenderem e escaparem de uma morte certa e inevitavel.
O indio agarrou convulsamente a cabeça com as duas mãos como se quizesse arrancar á força de seu espirito agitado e em desordem um pensamento salvador. Seu largo peito dilatou-se; uma idéa feliz luzira de repente na confusão de tantos pensamentos encontrados que fermentavão no cerebro, e reanimára sua coragem e força.
Era uma idéa original.
Pery lembrára-se que o alpendre estava cheio de grandes talhas e vasos enormes contendo agua potavel, vinhos fermentados, licores selvagens de que os aventureiros fazião sempre uma ampla provisão.
Correu de novo ao saguão, e encontrando a primeira talha tirou a torneira; o liquido começou a derramar-se pelo chão; ia passar á segunda quando a voz, que já lhe tinha fallado, soou de novo, baixa mas ameaçadora.