Nem um gemido escapou da massa inerte que se estorceu um momento e quedou de encontro ao muro.
Pery apanhou o arco que encostára á parede, e voltando-se para lançar um olhar sobre o quarto de Cecilia, estremeceu.
Acabava de ver pela soleira da porta o reflexo vivo de uma luz; e logo depois sobre a folhagem do oleo um clarão que indicava estar a janella aberta.
Ergueu os braços com um desespero e uma angustia inexprimivel; estava a dous passos de sua senhora e entretanto um muro e uma porta o separavão delia, que talvez áquella hora corria um perigo imminente.
Que ia fazer? Precipitar-se de encontro a essa porta quebra-la, espedaça-la? Mas podia aquella luz não significar cousa alguma, e a janella ter sido aberta por Cecilia.
Este ultimo pensamento tranquillisou-o, tanto mais quando nada revelava a existencia de um perigo, quando tudo estiva em socego no jardim e no quarto da menina.
Lançou-se para a cabana, e segurando-se ás folhas da palmeira galgou o ramo do oleo, e aproximou-se para ver porque sua senhora estava acordada áquella hora.
O espectaculo que se apresentou diante de seus olhos fez correr-lhe um calafrio pelo corpo; a gelosia aberta deixou-lhe ver a menina adormecida, e o italiano que tendo aberto a porta do jardim dirigia-se ao leito.
Um grito de desespero e de agonia ia romper-lhe do seio; mas o indio mordendo os labios com força reprimio a voz, que se escapou apenas n'um som rouco e plangente. Então prendendo-se á arvore com as pernas, o indio estendeu-se ao longo do galho e esticou a corda do arco.
O coração batia-lhe violentamente; e por um momento o seu braço tremeu só com a idéa de que a sua flecha tinha de passar perto de Cecilia.