De livido que estava o italiano tornou-se verde; procurou com os olhos a Ruy Soeiro e não o viu; decididamente o castigo da Providencia cahia sobre as suas cabeças, conheceu que estava irremediavelmente perdido, e que só a audacia e o desespero o podião salvar.
A extremidade em que se achava inspirou-lhe uma idéa digna delle: ia tirar partido para seus fins daquelle mesmo facto que parecia destrui-los; ia fazer do castigo uma arma de vingança.
Os aventureiros espantados sem comprehenderem o que vião, olhavão-se e murmura vão em voz baixa fazendo supposições sobre a morte do seu companheiro. Uns despertados de sobresalto pela agua que corria das talhas, outros que não dormião apenas admirados, se havião erguido, e no meio de um côro de imprecações e blasphemias acendêrão fachos para ver a causa daquella inundação.
Foi então que descobrirão o corpo de Bento Simões, e ficárão ainda mais surprendidos; os complices temendo que aquillo não fosse um começo de punição, os outros indignados pelo assassinato de seu companheiro.
Loredano percebeu o que passava no espirito dos aventureiros:
—Não sabeis o que significa isto? disse elle.
—Oh! não! explicai-nos! exclamarão os aventureiros.
—Isto significa, continuou o italiano, que ha nesta casa uma vibora, uma serpente que nós alimentamos no nosso seio, e que nos morderá a todos com o seu dente envenenado.
—Como?... Que quereis dizer?... Fallai!...
—Olhai, disse o frade apontando para o cadaver e mostrando a sua mão ferida; eis a primeira victima, e a segunda que escapou por um milagre; a terceira... Quem sabe o que é feito de Ruy Soeiro?