Estes certamens guerreiros, esses jogos de luta, combate e carreira, prezididos por mulheres que julgavam do valor dos campeões e conferiam premio aos vencedores, não cedem em galanteria aos torneios da cavalaria.
Ácerca da prova a que acima nos referimos, escreveu o Dr. Gonçalves Dias—Brazil e Oceania, cap. 10, Revista do Instituto, tom. 30, parte 2a, paj. 153:—Um tóro de barrigudo em um cabo delgado e de facil preensão, semelhante aos soquetes ou massetes de que ainda entre nós se uza em muitas partes para bater a terra das sepulturas, posto que mais poderozo que este, ou um grande pedaço de tronco de palmeira, era colocado no meio do terreiro. Vinha o guerreiro correndo, tomava o tronco, continuava a carreira, saltava fossos, subia elevações, arrojava-se ás vezes ao rio com elle e quem chegava primeiro e levava mais lonje a carga, esse ganhava a palma e a mulher que tinha de ser espozada. Explicou-se esse costume, de que trata Barlœus, Marcgraff e outros, e que ainda conservam algumas tribus do Piauí, pela necessidade que tinha o guerreiro de defender a mulher, e para que em ocazião de perigo a podesse salvar fujindo.»
O camucim da constancia.—Lê-se no Tezouro do Amazonas, cit. tom. 3 da Revista do Instituto, paj. 169. «O 5o predicado que tambem, como muitas outras nações conservam os Arapiuns, é a prova da valentia quando cazam; é um exame prévio ou o primeiro principio, como se diz nas Universidades, a suas bodas, e uma experiencia ou tentativa de seu valor para mostrarem que posto cazem não é por afeminados, mas por valentes. Ha diversos generos dessa prova de valentia; mas uma mui ordinaria nos indios Arapiuns é encherem uns grandes e compridos cabaços das formigas que chamam saugas (saúvas) grandes e mui bravas; ferram na carne com tanta ou mais valentia que os cães de fila, com proporção á grandeza destes e pequenez daquellas; porque os cães assim vêm a largar; mas as saugas não largam ainda que as matem e antes perderão a cabeça ficando com as troquezes cravadas na carne do que soltarem ellas preza; por isso uzam dellas alguns cirurjiões quando querem cozer alguma cicatriz com segurança, sem uzarem pontos, como adiante dizemos. Cheios, pois, os cabaços de saugas, não só famintas, mas quando estão com fome talvez de dias ... e sobre isso bem enraivadas com sacudidelas, prezentes todos os velhos e graves da missão, sae a terreiro o noivo examinando, destapam-se os cabaços nos quais intrepido mete os braços, a que logo acodem as filas, já para saciar a fome, já para dezabafar a ira, e já para provar e castigar o bacharel, o qual posto que as dôres o façam mudar de côres, torcer a boca, tremer o corpo, levantar as sobrancelhas e arrebentar as lagrimas, tenha paciencia, que se quer, ha de aturar a bucha, emquanto os examinadores já bebendo-lhe á saude e já dando voltas em bailes se vão regalando á sua custa, etc.
Igapê.—É o nenufar na lingua tupí, de Ig, ipe e potira—flôr d'agua. Os portuguezes corromperam essa palavra transformando-a em aguapé, nome por que é vulgarmente conhecida. Penso eu, porém, que devemos restaurar o nome indijena, até mesmo porque aguapé tem diversa significação em portuguez.
Uma dessas nímféas, a rainha das flôres, a que os indios chamavam milho d'agua, ou a flôr jaçanan, por servir de ninho a essas aves paludais, nace branca e com a luz do sol vai rozeando até se tornar escarlate.
Em uma noticia publicada pelos jornais li que o nome dessa flôr napê jaçanan significa, forno das jaçanans, do que duvido. O genitivo exprimiam os indios com antepozição do nome rejido por esse cazo; assim napê jaçanan significaria jaçanan do forno. Demais nem napê quer dizer forno; nem forno indica a idéa que se pretende de pouzo ou ninho.
Uapê aí é o mesmo igapê com a simples diferença de figurar-se a vogal indijena por u em vez de ig adotada pelo geral dos autores.