Dirigidas a D. Rodrigo ha muitos, uns, para lhe ordenar que vá a bordo dos navios surtos no Tejo e apartar de todos os mantimentos encontrados a bordo, os indespensaveis para as equipagens, e fazer transportar e pôr em arrecadação as restantes com as avaliações dos preços communs, e ordinarios, que até então valiam. Outros, para que desse livre entrada ás pescarias, aviso ao Marquez de Alegrete para exercer toda a vigilancia e mandar fixar editaes para que os padeiros, tendeiros, artifices e todos os homens de ganhar não podessem vender os seus generos ou exigir preços superiores aos do mez de outubro antecedente, isto sob penas gravissimas caso infringissem a lei de 4 de novembro; aviso ao Duque Regedor ordenando-lhe que os ministros encarregados das inspecções dos Bairros mandem ao Presidente do Senado da Camara, as relações de todos os mantimentos, que descobrissem fosse onde fosse; 6 de novembro. Aviso ao Marquez Estribeiro-mór para pôr guardas aos Erarios Reaes; 2 de novembro. Aviso ao Marquez de Tancos com ordem de fazer passar á côrte, algumas tropas do Reino, para manter a ordem e socego publico.—3 de novembro.

Aviso ao Marquez de Alegrete, para fazer com que os ministros encarregados da inspeção dos bairros mandassem as relações dos mantimentos para as participar aos ministros encarregados de, no Terreiro do Paço e na Ribeira as distribuir ao povo;—12 de novembro.

Aviso ao Duque sobre o parecer de recolher os doentes no Hospital Real:—6 de novembro.

Aviso ao Estribeiro-mór, para fazer tirar das minas o corpo do Embaixador de Hespanha;—7 de novembro.

Ordem ao Duque Regedor, para chamar á sua presença os ministros da inspeção dos bairros, ordenando-lhe a prisão dos authores das suggestões, com apparencia de profecias, espalhadas por alguns malfeitores para aproveitarem o terror e cometterem livremente{27} roubos e crimes atrozes vendo a cidade desamparada de seus moradores;—Não tem data. Outra ordenando ao mesmo Duque que empregue nas obras da cidade os ciganos que a inquietavam. Officio ao Patriarcha pedindo-lhe a necessaria authorisação para que os cadaveres fossem, com todos os ritos da Igreja, levados em navios até fóra da Barra e alli deitados ao mar com pesos, a fim de evitar pela decomposição dos mortos uma ipedemia. Mandou tirar uma relação minuciosa dos officios e rendimentos de toda a gente, empregando-se no desentulho e obras, todos os que eram vagabundos ou vadios, dando-lhe salario e comer. Estas não são nem a decima parte das providencias tomadas pelo illustre ministro, mas são as que dos tres volumes que aqui tenho, e que contem todas me pareceram de maior interesse e menos longos. Parece impossivel como um só homem poude pensar em tanta cousa. Todavia apesar d'estas e todas as outras providencias com que o ministro procurou atacar e evitar os males e as suas consequencias, o arrojo era tanto que os malfeitores com licenciosidade inaudita não recuavam praticando á luz do dia toda a casta de infamias e levando o roubo, a violação e o assassinio a toda a parte onde podiam entrar, sendo necessario pôr guardas em todas as casas que pela sua abastança, e importancia lhe podia servir de alvo. Foi em consequencia d'este estado de cousas que o ministro fez proclamar a lei de Lynch. Todo o delinquente apanhado em flagrante era preso, processado e sentenciado no logar do crime e alli mesmo ficava enforcado para servir de lição a quem quizesse imital-os. Esta medida energica e indespensavel no calamitoso estado a que chegára a capital, pôz côbro nos attentados e os moradores da cidade poderam então dormir socegados confiando no vigilante cuidado de Carvalho e Mello.

Não eram só estes os negocios que absorviam a fecunda imaginação do ministro de D. José; tinha que defender-se dos inimigos que tudo aproveitavam para o atacar; tinha que defender as costas de Portugal, dos corsarios argelinos, que pretendiam approveitar do terror e da desordem que uma tal catastrophe espalhára e que não desperdiçavam, todas as occasiões para desembarcar, espalhando tambem o roubo e o terror. Em alguns dias, o ministro enterrara mortos, desenterrara vivos; fizera encher os fossos abertos pelo tremor, enterrando n'elles muitos cadaveres; mandára transportar os feridos e moribundos, para hospitaes que fizera preparar em varios sitios da cidade; nada faltava n'estes hospitaes provisorios; os medicos, os enfermeiros os remedios appareciam como por encanto ao contacto da varinha magica da sua energia sublime. No Paço, as princezas e suas criadas não descançavam em preparar ataduras e fios.{29}

Onde a caridade tanto tinha que fazer, nem todos os padres ficaram inactivos; muitos d'elles puseram-se ao trabalho com um zelo verdadeiramente evangelico; levavam aos hombros os mortos para os cimiterios; conduziam nos braços os feridos para os hospitaes, encommendavam uns, consolavam outros, e animavam os moribundos com caridade christã. Foi assim que essa caridade se ligou ao zelo do ministro activo e resoluto para attenuar tanta miseria. Mas infelizmente tambem houve alguns que em vez de seguirem o salutar exemplo de seus irmãos exercendo a sua nobre e caritativa missão, calcaram aos pés deveres, verdade, humanidade, e fraternidade, e lembraram-se de subir ao pulpito, a essa cadeira que só deve servir para prégar o amor e caridade, e atacar o rei e o seu ministro accusando-os a ambos de impiedade e incutindo no povo a persuasão de «que os peccados do rei e a heresia do ministro, eram a causa do tremendo castigo que Deus justamente irado fizera cair sobre o reino; que as desgraças de toda a sorte não cessariam de sobrevir sobre seus desgraçados povos, em quanto o rei não fizesse penitencia publica por seus muitos peccados.» A estes, alcançou-os a justiça: foram perseguidos e severamente castigados pelo intuito barbaro de quererem augmentar a má ventura da nação com dissensões intestinas, assim como os outros haviam sido louvados e premiados. Quanto mais o ministro redobrava de zelo e de actividade, tantos mais males appareciam reclamando a sua intervenção. Conseguira por meio de acertadissimas medidas evitar a peste; combateu a fome e venceu esse inimigo esqualido e medonho; conseguiu libertar a cidade dos ladrões que a infestavam todavia com quanto tivesse feito muito lhe faltava ainda que fazer para terminar a sua obra, Lisboa desapparecera, era necessario fazel-a renascer, como a phenix, das proprias cinzas. Foi para este lado que se voltaram todas as faculdades da sua provada intelligencia: fez lavrar um plano sob as suas idéas, corregiu-o, animou as construcções que principiaram logo, facilitou essas edificações por todos os meios; fixava prasos para se fazerem sob penna de expropriação: deixou livre a importação de todos os materiaes necessarios; auxiliou essas construcções por muitas consessões, garantias e privilegios, etc., que instigavam os constructures e capitalistas a empregarem o seu dinheiro, e assim procurou auxiliar e conseguiu a reedificação da desmantelada Lisboa.

O ministro de França em despacho, respondendo a pedido de informações para o seu governo, com respeito ao terramoto e suas consequencias, dizia: «que apesar de toda a boa vontade e grandes deligencias empregadas por M. Carvalho, reputava impossivel a ressurreição de Lisboa».{30}

Tinham de levar um solemne desmentido, felizmente, as previsões do Embaixador francez e Lisboa não só se ergueu do seu abatimento, mas ainda ao erguer-se se apresentou muito melhor do que era antes, surgindo mais formosa do que nunca fôra. Parecia que as chamas do incendio, e as lagrimas de seus filhos a tinham purificado, embellezado e fecundado o seu solo.

Para reedificar a capital eram indispensaveis sommas enormes; o ministro não tardou em encontrar os meios de as obter; fez brotar nos negociantes de Lisboa o pensamento de offerecer ao rei 4% sobre todas as mercadorias, offerta que elle tratou de fazer acceitar ao monarcha, lavrando logo o decreto de 2 de janeiro de 1756. Os consumidores é que soffreram com este imposto muito mais que os negociantes; isto era um verdadeiro imposto de consumo sobre os generos de primeira necessidade mas sem que a maior parte désse por isso elle adquiriu os meios para reidificar a cidade, infatigavel no seu zelo, e desejo de engrandecer a nação que lhe fôra berço, Sebastião José de Carvalho depois de neutralisar e remediar os males devidos ao tremor de terra, procurou desenvolver os recursos que se podiam tirar do paiz; riquezas não exploradas, e fontes de rendimento que até então tinham jazido na inercia.