Era o inexplicavel phenomeno explicado finalmente aos habitantes dos Dois Mundos. Era o socego restituido aos numerosos observatorios que funccionam á superficie do globo terrestre.


CAPITULO XII
DE COMO O ENGENHEIRO ROBUR PROCEDE, COMO SE QUIZESSE CONCORRER PARA UM PREMIO MONTHYON

N’este ponto da viagem de circumaviação do Albatrós, é permittido fazer as seguintes perguntas:

Quem é afinal esse Robur, cujo nome se não conhece até agora? Passa a sua vida nos ares? A sua aeronave não descança nunca? Não tem um retiro em qualquer logar inaccessivel, onde, embora não precise de descançar, vá pelo menos abastecer-se? Seria espantoso se assim não fôsse. Os mais poderosos voadores teem sempre um abrigo ou um ninho em qualquer parte.

Além d’isso, o que pretendia o engenheiro fazer d’aquelles dois incommodos prisioneiros? Pretendia conserval-os em seu poder, condemnal-os á aviação perpetua? Ou então, depois de os haver passeado por sobre a Africa, a America, a Australia, o Oceano Indico, o Atlantico, o Pacifico, para os convencer de vez, mesmo a despeito d’elles, dar-lhes liberdade, dizendo:

—Agora, meus senhores, espero que se mostrarão menos incredulos com respeito ao “Mais pesado que o ar„!

Em todo o caso, o tal ninho, a ave Robur não se incommodou em o procurar na fronteira septentrional da Africa. Contentou-se com passar o fim d’aquelle dia por sobre a regencia de Tunis, desde o cabo Bon até o cabo Carthago, ora esvoaçando, ora pairando, á mercê de um capricho. Um pouco depois, dirigiu-se para o interior, e enfiou o admiravel vale da Medjerda, seguindo o seu caminho pardacento, perdido entre os arbustos de cactus e loureiros rosas. E que centos de papagaios elle não espantou, que pousados nos fios telegraphicos pareciam esperar pelos despachos, na sua passagem, para os levar nas suas azas!

Depois, tendo vindo a noite, o Albatrós balouçou sobre as fronteiras da Krumeria, e, se ainda restava um krumir, este não deixou decerto de se prostrar em terra, invocando Allah, á apparição d’aquella aguia gigantesca.