Durante vinte e quatro horas, toda a região, encerrada entre o meridiano zero e o segundo grau no colchete do Niger, se desenrolou sob o Albatrós.

Na realidade, se algum geographo tivesse tido á sua disposição um tal apparelho, com que facilidade poderia proceder ao levantamento topographico d’aquelle paiz, obter as cotas da altitude, fixar o curso dos rios e dos seus affluentes, determinar a posição das cidades e das aldeias! E desappareceriam então dos mappas da Africa central esses claros a tintas pallidas, essas linhas a pontos, e essas designações vagas que constituem o desespero dos cartographos!

No dia 11, pela manhã, o Albatrós transpoz as montanhas da Guiné septentrional, apertada entre o Sudão e o golpho que usa o seu nome. No horisonte perfilavam-se confusamente os Montes Kong do reino de Dahomey.

Depois de haverem sahido de Tombuctú, Uncle Prudent e Phil Evans haviam podido notar que a direcção tinha sido sempre de norte a sul. D’ahi a conclusão de que, se a direcção se não modificasse, encontrariam, seis graus além, a linha equinoxial. Iria ainda o Albatrós abandonar os continentes e lançar-se, não sobre o mar de Behring, ou mar Caspio, ou mar do Norte, ou Mediterraneo, mas por sobre o Oceano Atlantico?

Esta perspectiva não era para tranquillisar os dois collegas, cujas probabilidades de fuga se tornavam então nullas.

Comtudo o Albatrós caminhava de vagar, como se hesitasse no acto de deixar a terra africana.

Quereria o engenheiro Robur voltar atraz? Não! Mas a sua attenção era particularmente atrahida por aquelle paiz que elle então atravessava.

Sabe-se, e elle sabia tambem, o que era o reino de Dahomey, um dos mais poderosos do littoral occidental da Africa. Apesar de assaz forte para poder luctar com o seu vizinho, o reino dos Achantis, os seus limites são comtudo restrictos, pois que não conta mais de cento e vinte leguas de sul a norte e sessenta de léste a oéste; mas a sua população comprehende de setecentos a oitocentos mil habitantes, depois que annexou a si os territorios independentes de Ardrah e de Wydah.

Apesar de não ser grande, aquelle reino de Dahomey, tem dado muitas vezes que falar de si. É celebre pelas cruezas horriveis que assignalam as suas festas annuaes, pelos seus sacrificios humanos, e hecatombes espantosas, destinadas a honrar o soberano que se fina e o que o substitue. É mesmo de boa cortezia que quando o rei de Dahomey recebe a visita de algum alto personagem ou de um embaixador extrangeiro, lhe faça a surpresa de alguma duzia de cabeças cortadas em sua honra, e cortadas pelo ministro da justiça, o “minghan„, que desempenha perfeitamente as suas funcções de carrasco.