Tinha por aeronauta o celebre Harry W. Tinder, cujo nome foi pronunciado no principio d’esta narrativa,—e mais um ajudante.

Por passageiros, o presidente e o secretario do Weldon-Institute. Não mereciam elles uma tal honra? Não lhes competia vir protestar em pessoa contra todo o apparelho que se baseasse no principio do “Mais pesado que o ar„?

Comtudo, depois de sete mezes, elles não falavam ainda das suas aventuras. O proprio Fricollin, por mais vontade que tivesse, nada dissera do engenheiro Robur, nem da sua prodigiosa machina. Evidentemente, balonistas intransigentes como eram, Uncle Prudent e Phil Evans não queriam ouvir falar da aeronave ou de qualquer outro apparelho volante. Emquanto o balão Go a head não tivesse o primeiro logar entre os apparelhos de locomoção aerea, nada queriam admittir das invenções devidas aos aviadores. Acreditavam ainda, e queriam continuar a acreditar, que o verdadeiro vehiculo atmospherico era o aerostato e que só a elle pertencia o futuro.

Além de que, esse de quem haviam tirado uma tão grande vingança, na sua opinião, tão justa,—já não existia. Nenhum dos que o acompanhavam lhe podia sobreviver. O segredo do Albatrós estava agora sepultado nas profundezas do Pacifico.

Quanto a admittir que o engenheiro Robur tivesse um retiro, uma ilha onde descançar, no meio do vasto oceano, não passava de uma hypothese. Em todo o caso, os dois collegas reservavam-se para decidir mais tarde se não conviria fazer algumas pesquizas n’esse sentido.

Iam finalmente proceder a essa grande experiencia que o Weldon-Institute preparava de tão longa data e com tantos cuidados. O Go a head era o typo mais perfeito do que havia sido inventado até áquella épocha na arte aerostatica,—o que um Inflexivel ou um Formidavel é na arte naval.

O Go a head possuia todas as qualidades que um aerostato devia ter. O seu volume permittia-lhe subir até as ultimas alturas que um balão pode attingir; a sua impenetrabilidade permittia-lhe o poder manter-se indefinidamente na atmosphera; a sua solidez o arrostar com toda a dilatação de gaz, como tambem com as violencias da chuva e do vento; a sua capacidade, o dispôr de uma fôrça ascencional assaz consideravel para aguentar, com todos os seus accessorios, um machinismo electrico que devia communicar aos seus propulsores um poder de locomoção superior a tudo o que até então se tinha obtido. O Go a head tinha uma forma alongada que facilitava o seu deslocamento segundo a horisontal. A sua barquinha, plataforma pouco mais ou menos semelhante á do balão dos capitães Krebs e Renard, conduzia todos os utensilios necessarios aos aeronautas, instrumentos de physica, cabos, ancoras, guide ropes, etc., fora apparelhos, pilhas e accumuladores que constituiam o seu poder mechanico. Essa barquinha estava munida, na frente, de um helice e de um leme. Mas, provavelmente, a fôrça das machinas do Go a head devia ser inferior á dos apparelhos do Albatrós.

O Go a head tinha sido transportado, depois de cheio de ar, para a clareira do Fairmont Park, no proprio sitio onde a aeronave tinha pousado durante algumas horas.

Inutil é dizer que o seu poder ascensional lhe era fornecido pelo mais leve dos corpos gazosos. O gaz de illuminação não possue senão uma fôrça de setecentas grammas, proximamente, por metro cubico,—o que não dá senão uma insufficiente quebra de equilibrio com o ar ambiente. Mas o hydrogenio possue uma fôrça de ascensão que pode ser calculada em mil e cem grammas. Esse hydrogenio puro, preparado segundo os processos e apparelhos especiaes do celebre Henry Giffard, enchia o enorme balão. Portanto, já que a capacidade do Go a head media quarenta mil metros cubicos, a potencia ascensional do seu gaz era quarenta mil multiplicados por mil e cem, isto é, quarenta e quatro mil kilos.

N’essa manhã de 29 de abril tudo estava prestes. Desde as onze horas, o enorme aerostato balouçava a alguns pés do solo, prestes a subir ao ar.