Robur continuou:
—Um balão!... quando para obter um aligeiramento de um kilogramma, é necessario um metro cubico de gaz! Um balão, que tem a pretensão de resistir ao vento com o auxilio do seu mechanismo, quando o impulso de um forte vento na véla de um navio não é inferior á fôrça de quatrocentos cavallos; quando se viu, ao oéste da ponte de Tay, que o furacão exercêra uma pressão de quarenta kilos por metro quadrado! Um balão! quando jámais a natureza construiu sobre esse systema nenhum ser que vôe, que esteja munido de azas como as aves, ou de membranas como certos peixes e certos mammiferos!...
—Mammiferos?... exclamou um dos membros do club.
—Sim! o morcego, que vôa, se me não engano! Porventura o meu interruptor ignora que esse volatil é um mammifero, e já se viu alguma vez fazer uma omelette com os ovos do morcego?
Com isto o interruptor recolheu as suas futuras interrupções, e Robur continuou com a mesma desenvoltura:
—Mas quer isto dizer que o homem deva renunciar á conquista do ar, a transformar os costumes civis e politicos do velho mundo, servindo-se d’esse admiravel meio de locomoção? Não! E do mesmo modo que elle se tornou senhor dos mares, com o navio, por meio do leme e da véla, da roda e do helice, do mesmo modo se tornará senhor do espaço atmospherico por meio de apparelhos mais pesados do que o ar, porque é necessario ser-se mais pesado do que elle, para se ser mais do que elle forte.
D’esta vez a assembléa explodiu. Que descarga de gritos partindo de todas as bôccas, dirigidas contra Robur, como outros tantos canos de espingarda ou guellas de canhão! Pois não precisava de resposta aquella verdadeira declaração de guerra, lançada no campo dos balonistas? Não era a lucta que ia começar entre o “Mais ligeiro„ e o “Mais pesado que o ar„?
Robur nem pestanejou. Com os braços cruzados sobre o peito, esperava corajosamente que o silencio se restabelecesse.
Uncle Prudent, com um gesto, ordenou que o fogo cessasse.
—Sim, continuou Robur. O futuro é das machinas volantes. O ar é um ponto de apoio solido. Imprima-se a uma columna d’este fluido um movimento ascensional de quarenta e cinco metros por segundo, e um homem poderá manter-se na sua parte superior, se as solas dos seus sapatos medirem uma superficie de um oitavo de metro quadrado apenas. E se a velocidade da columna fôr elevada a noventa metros, poderá caminhar a pés nús. Ora fazendo fugir, sob as hastes de um helice, uma massa de ar com aquella rapidez, obtem-se o mesmo resultado.