N’uma palavra, como o dissera Robur, o Albatrós, desenvolvendo toda a fôrça dos seus helices, podia dar a volta ao mundo em duzentas horas, isto é, em menos de oito dias!
Pouco se importava esta machina voadora que o globo possuisse n’aquella épocha quatrocentos e cincoenta mil kilometros de via ferrea, isto é, onze vezes a circumferencia da terra no equador. Pois não tinha ella por ponto de apoio todo o ar do espaço?
E será preciso dizer agora que esse phenomeno, que tanto havia intrigado o publico dos dois mundos, era a aeronave do engenheiro Robur? Aquella trombeta que soltava notas vibrantes nos ares, era a do contramestre Tom Turner. A bandeira collocada no alto dos principaes monumentos da Europa, Asia e America, era a bandeira de Robur, o Conquistador, e do seu Albatrós.
E se, até então, o engenheiro tomára algumas precauções para que o não reconhecessem; se, de preferencia, elle viajava de noite, alumiando-se ás vezes com os seus pharoes electricos; se, durante o dia, desapparecia por cima da camada das nuvens, agora parecia não querer occultar o segredo da sua conquista. E se viera a Philadelphia, se se apresentára na sala das sessões do Weldon-Institute, não era para dar parte da sua prodigiosa descoberta, para convencer ipso facto os mais incredulos?
Sabemos como fôra recebido e vamos ver as represalias que queria exercer sobre o presidente e o secretario do mencionado club.
Robur approximára-se dos dois collegas. Estes affectavam não ter a menor surpresa do que viam e do que experimentavam, bem contra sua vontade. Evidentemente, dentro d’aquelles dois craneos anglo-saxonios incrustava-se uma teimosia que seria difficil arrancar.
Pelo seu lado, Robur não quiz tambem ter o ar de quem percebia isso, e como se continuasse a conversação, que estava aliás interrompida havia duas horas:
—Meus senhores, disse elle, estão de certo perguntando a si proprios se este apparelho, maravilhosamente apropriado á locomoção aerea, é susceptivel de receber uma velocidade maior? Elle não seria digno de conquistar o espaço se fôsse incapaz de o devorar. Eu quizera que o espaço fôsse para mim um ponto de apoio solido, e é. Comprehendi que, para luctar contra o vento, era unicamente preciso ser mais forte do que elle, e sou mais forte. Não tenho necessidade de vélas para me mover, nem de remos, nem de rodas para me puxar, nem de rails para fazer mais rapidamente o caminho. Ar, e mais nada. O ar que me envolve, como a agua o barco submarino, e no qual os meus propulsores giram como os helices de um vapor. E aqui está como resolvi o problema da aviação. Eis o que não faria nem o balão nem outro apparelho mais leve que o ar.
Mutismo absoluto dos dois collegas, o que não desconcertou um instante o engenheiro. Contentou-se com sorrir e continuou em forma interrogativa:
—Talvez perguntem tambem se, ao poder que tem de se deslocar horisontalmente, o Albatrós junta um egual poder de deslocamento vertical: n’uma palavra, se mesmo quando se trata de visitar as altas zonas da atmosphera, pode luctar com um aerostato? Pois bem, não os aconselho a pôr em lucta o Go a head com elle.