No observatorio de Berlim, no de Vienna, a discussão ameaçava trazer complicações internacionaes. Mas a Russia, na pessoa do director do observatorio de Ponlkowa, provou-lhes que tinham ambos razão;—isso provinha do ponto de vista em que se collocavam para determinar a natureza do phenomeno, impossivel em theoria e possivel na prática.
Na Suissa, no observatorio de Sautis, no cantão de Appenzel, no Righi, no Cabris, nos postos de Saint-Gothard, de S. Bernardo, do Julier, do Simplon, de Zurich, da Somblick nos Alpes tyrolezes, deram prova de uma extrema reserva, a respeito de um facto que ninguem poude nunca contestar,—o que era muito razoavel.
Mas na Italia, nas estações meteorologicas do Vesuvio, no posto do Etna, installado na antiga Casa Inglese, em Monte Cavo, os observadores não hesitaram em admittir a materialidade do phenomeno, attendendo a que haviam podido vêl-o, um dia, sob o aspecto de uma pequena voluta de vapor, e uma noite sob o aspecto de uma estrella cadente. Mas o que era afinal de contas, ninguem o sabia absolutamente.
Com effeito aquelle mysterio começava a fatigar os homens de sciencia, emquanto que continuava a apaixonar, a assombrar mesmo, os humildes e os ignorantes, que teem constituido, constituem e continuarão a constituir a maioria, a immensa maioria, graças a uma sabia lei da natureza. Os astronomos e os meteorologistas teriam portanto renunciado a occupar-se d’elle se, na noite de 26 para 27, o observatorio de Kantokeino, no Finmark, da Noruega, e na noite de 28 para 29, o de Isfjord, em Spitzberg,—norueguezes por um lado e suecos por outro, não tivessem chegado a um accôrdo sobre o seguinte:—no meio de uma aurora boreal tinha apparecido uma especie de grande ave, ou monstro aereo. Se não fôra possivel determinar a sua estructura, pelo menos era fora de duvida que destacava de si corpusculos que detonavam como bombas.
Na Europa bem quizeram não pôr em duvida esta observação das estações de Finmark e do Spitzberg. Mas o que pareceu mais phenomenal em tudo isto, foi que os suecos e os norueguezes pudessem chegar a um accôrdo sobre um ponto qualquer.
Riram-se da pretendida descoberta em todos os observatorios da America do sul, no Brazil ou no Perú como em la Plata, nos de Australia, em Sydney ou em Adelaide, como em Melbourne. E o riso americano é dos mais communicativos.
Um unico chefe de estação meteorologica se apresentou com uma opinião affirmativa n’este ponto, apesar de todos os sarcasmos a que a sua solução podia dar origem. Foi um chinez, o director do observatorio de Zi-Ka-Wey, erigido no meio de uma vasta planicie, a menos de dez leguas do mar, com um horisonte immenso, banhado de ar puro.
—Pode ser, disse elle, que o objecto de que se trata seja unicamente um apparelho aviatorio, uma machina volante!
Pura zombaria!
Mas se as controversias tinham sido vivissimas no Antigo Continente, imagine-se o que seria n’essa porção do continente novo, de que os Estados Unidos occupam o mais vasto territorio.