Como se vê, sob o imperio da colera, os dois collegas,—Uncle Prudent principalmente—podiam ser levados a praticar os actos mais temerarios e talvez os mais contrarios á sua propria segurança.
O sentimento da sua impotencia, o desdem ironico com que Robur os tratava, as respostas brutaes que elle lhes dava, tudo contribuia para tornar tensa uma situação cujo aggravamento era cada dia mais manifesto.
N’esse mesmo dia uma nova scena esteve para produzir uma altercação das mais lamentaveis entre Robur e os dois collegas. Mal imaginava Fricollin que seria elle quem a provocasse.
Vendo-se sobre este mar sem limites, o poltrão teve uma grande surpresa. Como uma creança, como um negro que era, poz-se a gemer, a gritar, a agitar-se em mil contorsões e caretas.
—Quero-me ir embora!... quero-me ir embora! gritava elle. Não sou passaro!... Não fui feito para voar!... Ponham-me em terra!... depressa!...
É claro que Uncle Prudent não se importava nada com socegal-o,—pelo contrario. De modo que aquelles berros acabaram por impacientar Robur, fortemente.
Ora como Tom Turner e os seus companheiros iam proceder ás manobras da pesca, o engenheiro, para se vêr livre de Fricollin, ordenou que o fechassem no seu compartimento. Mas o negro continuou a debater-se, a patear, a berrar cada vez mais.
Era meio dia. O Albatrós estava então a uns cinco ou seis metros apenas do nivel do mar. Algumas embarcações, espantadas com a sua presença, tinham desatado a fugir. Não tardaria em ficar deserta aquella porção do mar Caspio.
Como se pode imaginar, n’estas condições em que elles não tinham mais do que atirar-se á agua para fugir, os dois collegas deviam ser, e eram de facto, objecto de uma vigilancia especial. Admittindo mesmo que elles se atirassem pela borda fora, facil seria apanhal-os com o barco de cautchuc do Albatrós. Portanto nada se podia fazer durante a pesca, a que Phil Evans julgou dever assistir, emquanto que Uncle Prudent, em perpetuo estado de raiva, se retirava para o seu beliche.