Era o que pensava Francisco Theodoro, querendo agarrar-se á sua fé antiga, que temia cahisse agora, abalada pela ventania d'aquelles dias de loucura.
[VIII]
Na saleta de engommar, Noca, com o ferro na mão, sabia do que se passava em toda a casa. Nesse dia ella trouxera uma braçada de roupas para cima de uma cadeira junto da taboa. Lia e Rachel interromperam-n'a depressa.
—Noca, você corta um vestido para a minha boneca? pediu Lia.
—E outro para a minha, Noca?
—Vão-se embora. Hoje não tenho tempo para conversas.
—Um só, Noca, sim?
—Não faço nada! Amanhã seu pae está ahi gritando que não tem roupa!
Mas as meninas ficaram, trouxeram a rastos uma esteira, sentaram-se nella e a Noca não teve remedio senão cortar os vestidos das bonecas e ainda dar-lhes agulhas, linhas e retalhos. Distribuido o serviço, levantou-se. Nina passava a caminho da despensa e sorriu-lhe; mas a mulata mal correspondeu ao cumprimento, enjoada pela bondade d'aquella creatura.
A culpa era do sangue, da sua raça, que menos estima os superiores quanto mais estes a afagam. Por isso ella morria de amores por Mario, um rapazinho atrevido, de genio authoritario e palavras duras.