—Você está molle, anda differente. Reaja, tome remedios. Que diabo! eu tenho obrigação de obsequiar os homens. Elles vêm ahi em nome da colonia. Não quero fazer figura triste.

—Alguma manifestação? perguntou Gervasio.

—Sim. Uma tolice. Ideias do Braga, do Lemos e de outros. Avisou-me hoje d'isso o Negreiros. Foram até ao ministro, e não sei mais o que! Emfim, já disse, o que eu não quero é fazer figura triste. O engraçado é que minha mulher fallava em dar um grande baile, e agora, que se apresenta a occasião, faz cara feia!

Dr. Gervasio acudiu. Achava magnifica a ideia e procuraria auxilial-a na execução. De si para si pensava que esse pretexto traria Milla ao movimento da sua vida habitual; arrancal-a-ia d'aquella obstinação de pensamento, d'aquella apathia physica que o atormentava.

Pela primeira vez o viram interessado por uma festa. Francisco Theodoro pediu-lhe que a dirigisse. D'esse dia em deante o medico punha e dispunha do palacete, como senhor absoluto. Determinava como as coisas se fizessem. A ceia seria no terraço, ao fundo, sob una toldo de seda, entre bosquetes de avencas e camelias brancas; desenhava ornamentos, encommendava flores, substituia estofos, harmonisava cores, dava estylo e graça ao que só tinha peso e luxo; idealisava a matéria, arrancava uma alma delicada áquellas salas carregadas e mudas.

Milla assistia a tudo silenciosa, abatida pelas suas suspeitas; mas, pouco a pouco, Gervasio convencia-a de que a sua ciumada era uma doidice. Não tivera elle tambem ciumes do capitão Rino? E ahi estava: já nem pensava nisso!

Como o coração de Milla não comportasse rigores, affeito á felicidade, ella foi esquecendo.

[IX]

Uma tarde, Mario entrava na sala de jantar, quando viu o Dr. Gervasio á mesa; então tornou a sahir, sem dizer uma palavra.

Milla sentiu o coração parar-lhe no peito. Theodoro não ligou importancia ao caso; para elle o filho voltara a buscar algum objecto esquecido, e, tão enthusiasmado estava a fallar em negocios, que só para a sobremesa disse espantado: