—Não, Theodoro, não! É o divertimento d'ella; e é tão innocente!
—Lá vens tu...
Ruth não os ouvia, voava no ar como uma pluma, cerrando os olhos á claridade que se diffundia nas côres gloriosas de um crepusculo ardente. De vez em quando, num impulso mais forte a sua cabeça roçava na rama florida do cajazeiro, e o sussurro das folhas tinha para os seus ouvidos um rumor divino e rythmado, de musica impeccavel. Toda a sua força se concentrava nas mãos, que a aspereza das cordas magoava, unica parte então sensivel do seu corpo, que ia e vinha na luz cambiante da tarde, como uma sombra movediça e impalpavel.
Na vertigem do vôo, ella não via, em cima e em roda, senão claridades estonteadoras, onde anjos azues abriam azas esgarçadas de nuvens fugidias, por entre barras de ouro e ennoveladas fogueiras rubras. Em baixo, na terra côr de ambar, o velludo verde das gramas e dos arbustos distendia-se num espreguiçamento voluptuoso e macio, á espera do somno.
Ia chegando a hora da consagração purissima da natureza: a hora das estrellas. Não tardou que o alaranjado poente se concentrasse num roxo escuro, bipartido em ilhotas negras, sobre um mar de prata. De repente, a penumbra.
O calor augmentava; houve roncar de trovoada ao longe.
—Quer Deus Nosso Senhor que eu me vá embora, disse o medico.
—Sim, é prudente, nós vamos ter chuva ... respondeu Theodoro, consultando o céu. E chuva de arrazar!
Camilla ordenou a Ruth que descesse e fosse dentro buscar o chapéu do medico. Despediram-se.
Quando Theodoro entrou em casa, perguntou á Noca: