Os lampeões de gaz mal alumiavam as calçadas solitarias, envolvidos pelas nuvens de poeira, que vinham de longe, varridas pela ventania, lambendo tudo. De vez em quando, um bond passava, de oleados corridos, com tilintar de campainhas que vibravam timidamente no vozear medonho da noite.
Nina voltou para dentro, desabotoou o corpinho e atirou-o para uma cadeira; sentia-se oppressa. O tufão descançava: ella voltou á janella, curiosa, com anciedade, cosendo o peito nú ao peitoril largo. Não viu nada. A voz arrastada de um bebedo guinchava na esquina, em falsete, acompanhada por outra voz, que fallava na mesma toada. Uma nova lufada veiu forte, terrivel, abalando tudo.
A unica janella illuminada da visinhança fechou-se.
O bebedo foi arrastado para longe, perderam-se os seus queixumes á distancia, e só ficou o vento, cada vez mais forte, uivando, uivando.
Agora não parava; enchia tudo com o seu sopro formidavel.
Sentia-se o estalar crepitante das folhas estorricadas pelo sol e o aroma das verdes, que elle ia levando pelo ar em revoada louca. Na inutil resistencia da lucta, as arvores contorciam-se, estalavam; cahiam arbustos arrancados pelas raizes, e fructas verdes despenhavam-se sobre as telhas, com estrondo.
Nina expunha a cabeça núa ao açoite da tormenta, ennervada pela fixidez da sua ideia. Entretanto, sabia, o Mario não merecia aquillo, não a amaria nunca.
Havia uns quinze annos já que ella morava naquella casa, levada pelo pae, o Joca; era então muito enfezada, apezar dos seus dez annos. Entrara para alli como poderia ter entrado para um asylo qualquer: para ter cama e pão. Não ignorava isso, lembrava-se de tudo. Era obrigada mesmo a meditar no passado mais do que queria. Não conhecêra a mãe, e em frente á mudez da tréva pensava nella, como se a tivera visto. Não comprehendia por que rejeitavam o seu coração amoroso. Nem mãe na infancia, nem noivo na mocidade. Que triumpho!
Sabia pelos outros que a mãe fôra uma mulher da má vida e baixa classe; mais nada; e não era pouco.
Criara-a desde o primeiro anno a avó paterna, D. Emilia, sem muitos agasalhos, porque o dinheiro era escasso e a paciencia já não era nenhuma. Por causa d'isso aprendera depressa todos os serviços caseiros, era a copeira da familia, e aos nove annos já não se atrapalhava quando tinha de pôr uma panella de arroz ou de feijão no fogo. Lá teria ficado sempre em Sergipe, se o Joca não se tivesse casado com uma viuva carregada de filhos e que não podia vêr a enteada deante de si... Sempre as antipathias! Não era para tornar má uma creatura? Lembrava-se que não fôra tambem acolhida com enthusiasmo na casa de Francisco Theodoro.