Antes de se sentarem á mesa, os dois irmãos foram ao quarto da madrasta, uma senhora muito gorda, que se alastrava pela cama, com um lenço amarrado na cabeça e o rosto polvilhado de amido. A Hermengarda tinha cerrado as janellas e vigiava a doente, na penumbra. Sobre a mesa muitos vidros de remedios, e um cheiro de camphora espalhado em tudo.

O leito rangeu, ao movimento do corpo enorme, que se voltava a custo, e a enferma, fazendo uma voz debil, queixou-se de muitas dores e de muito frio.

Os enteados disseram-lhe meia duzia de phrases animadoras, recommendaram-lhe paciencia e, sentindo que a importunavam, sahiram em bicos de pés.

Antes de se sentarem á mesa, Catharina confessou ao irmão sentir-se alliviada com a ausencia da madrasta. Teriam assim um jantar mais intimo.

Elle perguntou:

—Afinal, tu a aborreces só por ella ser tua madrasta?

—Só. Se a morte de minha mãe tivesse sido natural, eu acceitaria depois a madrasta, senão com ternura, ao menos com respeito. Assim, quero-lhe mal, porque, escolhendo meu pae, ella offendeu minha mãe. Mas o mal está feito e é irremediavel, não fallemos nelle. Suppõe que eu sou uma exquisita, que ella é outra, e não penses mais nisso.

Ao jantar fallaram-se baixo para não incommodar a doente, cujo quarto era na visinhança.

Quando á noite o capitão Rino se despediu da irmã no jardim, sentiu, ao abraçal-a, que ella chorava. Era a primeira vez, entre tantas de separação, que isso acontecia. Elle beijou-a consolado, certo de que em toda a terra havia um coração que o amava com firmeza, com sinceridade—o d'ella.

[XII]