—Gente! já se esqueceu que hoje de manhãzinha viu uma borboleta azul? Pois olhe: ella veio lhe avisar que você havia de receber este bonito dote... E ainda ha quem não acredite!
—Sim, é verdade, você me disse...
E a moça sorriu; mas havia no seu sorriso uma mescla de ironia e de doçura.
Na segunda-feira, ás duas horas da tarde o Innocencio Braga apresentou-se á Francisco Theodoro no seu escriptorio da rua de S. Bento para buscar a papelada; mas o negociante esquecera-se d'ella em casa, mostrando-se indeciso, e renovando com disfarce perguntas em que transparecia a mais viva curiosidade.
O outro, percebendo tudo, muito correcto, explicou com detalhes todos os pontos, sem insistir com Theodoro para que accedesse. O que tinha de dizer estava dito. Que passasse muito bem. Coube então a Theodoro prometter que iria elle pessoalmente levar os papeis á sua residencia, na rua do Riachuelo, e conversar de novo sobre o assumpto.
Nessa tarde o Ribas, balançando os braços molles, entregava ao patrão uma carta manchada pelos seus dedos suados. Era do velho Motta; a perna não o deixava ainda ir ao serviço; pedia desculpas com humildade, tresuando miseria. Era o dia do vencimento do ordenado.
Francisco Theodoro deixou cahir a carta na cesta dos papeis rasgados e, cofiando a barba, cogitou na melhor maneira de responder ao Innocencio...
[XIII]
O palacete Theodoro preparava-se para o baile.
Desde manhã até á tarde era uma invasão de operarios pelas salas e corredores, um continuo martellar nas paredes, bulhas abominaveis de escadas arrastadas, de utensilios atirados ao chão, de laminas raspando parquets e de moveis deslocados.